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IA na campanha eleitoral americana: o boom da slopaganda e seus impactos

Com as eleições de meio de mandato nos Estados Unidos marcadas para 3 de novembro, a inteligência artificial (IA) tornou‑se uma ferramenta central nas estratégias de propaganda política. O fenômeno, conhecido como “slopaganda”, combina mensagens eleitorais com conteúdo gerado por IA de qualidade questionável, ampliando o alcance e a persuasão dos anúncios. Essa prática está remodelando o cenário das campanhas, despertando debates sobre transparência, ética e regulação.

O que é a slopaganda e como funciona

O termo “slopaganda” surge da junção de “propaganda” com “sloppy”, que em inglês significa desleixado ou de baixa qualidade. Pesquisadores utilizam essa nomenclatura para descrever anúncios políticos que incorporam imagens, vídeos ou textos criados total ou parcialmente por IA, muitas vezes sem indicar a origem tecnológica.

Esses anúncios podem apresentar:

  • Imagens de rostos ou cenários inexistentes, gerados por redes neurais.
  • Vídeos nos quais vozes são sintetizadas para reproduzir declarações de candidatos.
  • Textos que imitam o estilo de discurso de figuras públicas, mas com informações distorcidas.

Um exemplo marcante foi o vídeo produzido por um grupo ligado ao senador republicano Ted Cruz, que mostrou o candidato ao Senado de Michigan, Abdul El‑Sayed, segurando cartas com mensagens provocativas e ao lado de uma família artificialmente criada pela IA. Embora o material incluísse um aviso de que havia sido “criado, total ou parcialmente, com o auxílio de inteligência artificial”, a maioria dos anúncios não traz esse tipo de transparência.

Quem está investindo mais: republicanos versus democratas

Os dados coletados pelo Wesleyan Media Project revelam um desequilíbrio significativo nos investimentos. Dos 220 anúncios identificados até o momento, quase 81% foram financiados por candidatos republicanos ou organizações alinhadas ao Partido Republicano. Os democratas representaram apenas 12% desse total, enquanto o restante veio de grupos independentes.

Em termos financeiros, os números são ainda mais impressionantes:

  1. Mais de US$ 137 milhões (cerca de R$ 753,4 milhões) foram gastos na veiculação de anúncios com IA.
  2. Em 2024, o gasto com esse tipo de propaganda era de apenas US$ 50 mil (R$ 274 mil), indicando um crescimento exponencial.
  3. Apenas 27% dos anúncios identificados incluíram aviso sobre o uso de IA, segundo Erika Franklin Fowler, codiretora do projeto.

Esses valores demonstram que a IA está se consolidando como diferencial competitivo, sobretudo entre os candidatos republicanos que buscam maximizar o impacto visual e emocional de suas mensagens.

Desafios regulatórios e a reação do eleitorado

Nos Estados Unidos ainda não existe uma legislação federal que obrigue a divulgação do uso de IA em propaganda eleitoral. Alguns estados já criaram normas mais restritivas, mas a aplicação permanece fragmentada. O senador democrata Jon Ossoff, da Geórgia, classificou o crescimento da IA na campanha como “profundamente preocupante” e solicitou a retirada de um anúncio que mostrava o senador em um salão de beleza, sugerindo que ele estaria “maquiando” seu relatório de prestação de contas.

Além das iniciativas legislativas, a opinião pública tem se mostrado crítica. Uma pesquisa realizada para a Fundação AAPC revelou que 73% dos entrevistados consideram o uso de IA em anúncios políticos “inaceitável”. Essa percepção reflete uma preocupação crescente com a capacidade da tecnologia de gerar desinformação e manipular a percepção dos eleitores.

Os especialistas alertam que o volume de anúncios produzidos com IA não indica necessariamente maior eficácia. A falta de transparência pode gerar desconfiança, minando a credibilidade das campanhas e dificultando a avaliação da veracidade das informações pelos eleitores.

Para enfrentar esses desafios, alguns analistas defendem a criação de regras claras que exijam a rotulagem obrigatória de conteúdo gerado por IA, bem como a implementação de auditorias independentes para verificar a origem dos materiais. Tais medidas poderiam equilibrar a inovação tecnológica com a necessidade de preservar a integridade do processo eleitoral.

Enquanto o debate sobre regulação avança, a tendência é que a IA continue a ser explorada como ferramenta de persuasão nas campanhas. A vigilância da sociedade civil, combinada com políticas públicas eficazes, será crucial para garantir que a tecnologia sirva ao interesse democrático, em vez de se tornar um instrumento de manipulação.

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