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Guterres alerta sobre a crescente multipolaridade e pede reforma da ONU em seu último discurso

António Guterres, secretário‑geral da Organização das Nações Unidas, pronunciou seu último discurso de abertura da Assembleia Geral nesta terça‑feira, 24 de setembro de 2026, em Nova Iorque. Ele alertou que as linhas de ruptura no mundo estão se alargando e pediu reformas urgentes dentro da própria ONU.

Desafios geopolíticos e humanitários em expansão

O mandatário português descreveu as fissuras globais como “desfiladeiros” que se aprofundam a cada conflito. Segundo ele, as divisões geopolíticas abriram‑se e as desigualdades se intensificaram, criando um clima de instabilidade que afeta todos os continentes.

Ele citou explicitamente as crises que marcaram sua gestão, sem mencionar a tensão entre Estados Unidos e Irã, mas destacando:

  • O conflito na Faixa de Gaza, envolvendo Hamas, Israel e a Cisjordânia;
  • A guerra entre Rússia e Ucrânia, que continua a gerar milhares de deslocados;
  • Os impactos humanitários decorrentes de bombardeios, bloqueios e violações de direitos humanos.

Guterres enfatizou que “guerras eclodiram com consequências devastadoras e se prolongaram com crueldade abominável”. Ele apontou que civis foram alvos, que a fome foi usada como arma e que trabalhadores humanitários foram mortos, enquanto o direito internacional foi relegado ao segundo plano.

Inteligência artificial: da ficção à ameaça real

O secretário‑geral alertou para o rápido avanço da inteligência artificial (IA) e seus riscos potenciais. Segundo ele, “os humanos estão cada vez mais entregando poder às máquinas, com agentes artificiais se tornando desonestos”.

Ele comparou a ameaça da IA aos desafios das armas nucleares durante a Guerra Fria, defendendo que a comunidade internacional adote mecanismos de cooperação para evitar uma catástrofe tecnológica.

Entre os perigos citados, destacam‑se:

  1. Armas autônomas que podem agir sem intervenção humana;
  2. Manipulação de informações que pode desestabilizar processos democráticos;
  3. Vigilância massiva que compromete a privacidade dos cidadãos.

Guterres reforçou que a IA exige “a mesma clareza de propósito e o mesmo senso de urgência” que a contenção nuclear exigiu nas décadas de 1950 e 1960.

Reforma do Conselho de Segurança e a necessidade de representação equitativa

O líder da ONU voltou a defender a reforma do Conselho de Segurança, criado após a Segunda Guerra Mundial, para que reflita o mundo de hoje. Ele ressaltou que, quando a organização foi fundada, grande parte da África ainda estava sob domínio colonial.

Oito décadas depois, o continente continua sem assento permanente no órgão, o que o secretário‑geral classificou como “injusto e indefensável”.

Ele enumerou os atuais membros permanentes com poder de veto:

  • Estados Unidos;
  • China;
  • Rússia;
  • França;
  • Reino Unido.

Guterres argumentou que poder militar, econômico ou tecnológico isoladamente não garante paz ou segurança. Segundo ele, a solução passa por reconhecer que “os poderes têm limites” e que a cooperação multilateral é essencial.

Perspectivas para o futuro da ONU

A Assembleia Geral deste ano reúne cerca de 130 chefes de Estado e de governo sob o lema “Restaurar a confiança, gerenciar a transformação: uma ONU que entrega resultados para todos”. Além das guerras, as discussões deverão se concentrar na IA, nas mudanças climáticas, na economia mundial e no futuro do sistema multilateral.

Após a fala de Guterres, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil, manterá a tradição de abrir o evento com seu discurso. Em seguida, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assumirá a palavra, reforçando o papel de anfitrião do país.

Embora não haja reunião bilateral oficial programada entre Lula e Trump, a agenda oferece espaço para um contato informal nos bastidores, semelhante ao ocorrido no ano anterior, quando os líderes trocaram algumas palavras antes de seus pronunciamentos.

Em síntese, o último discurso de Guterres destaca três pilares críticos: a necessidade de enfrentar fissuras geopolíticas, a urgência de regular a inteligência artificial e a demanda por uma reforma profunda do Conselho de Segurança que inclua a África como protagonista permanente. O futuro da ONU depende da capacidade dos Estados‑Membros de transformar esses alertas em ações concretas.

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