Em 2024, a administração de Donald Trump intensificou a chamada “guerra às drogas” na América Latina, adotando uma postura militarizada e vinculando o combate ao narcotráfico ao combate ao terrorismo. A medida foi anunciada em Washington e rapidamente repercutiu em capitais como Bogotá, Caracas e Brasília, gerando debates sobre soberania e direitos humanos.
Contexto histórico da guerra às drogas
Desde a declaração de guerra às drogas feita por Richard Nixon em junho de 1971, os Estados Unidos mantêm uma presença constante nas políticas antidrogas da região. As primeiras intervenções focaram na erradicação de plantações de coca na Colômbia, apoio a operações de interdição marítima e acordos de extradição que envolveram dezenas de países latino‑americanos.
Ao longo de cinco décadas, os recursos investidos ultrapassaram dezenas de bilhões de dólares, mas o mercado ilícito mostrou resiliência, adaptando rotas, métodos de produção e estratégias de lavagem de dinheiro. O esforço militar e policial, embora intenso, nunca conseguiu eliminar a demanda nos países consumidores.
Militarização e retórica sob a administração Trump
Com a ascensão de Trump ao poder, a política antidrogas recebeu um novo impulso, marcado por uma “militarização extrema, sem precedentes”, segundo a cientista política Vanda Felbab‑Brown. O discurso oficial equipara traficantes a terroristas, justificando o uso de forças especiais, drones e bloqueios marítimos como ferramentas legítimas de combate.
Em 2023, o Departamento de Segurança Interna dos EUA designou mais de 20 cartéis e organizações criminosas latino‑americanas como Organizações Terroristas Estrangeiras (OTEs). Entre elas, grupos como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram incluídos, apesar da oposição do governo brasileiro.
- Uso de drones para vigilância de rotas marítimas no Caribe.
- Operações de bloqueio naval contra embarcações suspeitas de tráfico.
- Treinamento de forças policiais locais com armamento pesado.
Essas ações foram acompanhadas por uma retórica que remete à Doutrina Monroe, agora reinterpretada como “Doutrina Donroe”, em referência ao primeiro nome de Donald Trump. A ideia central é reafirmar a supremacia americana no hemisfério ocidental, usando o combate ao narcotráfico como pretexto político.
Consequências para a região e críticas internacionais
Os países da América Latina têm experimentado um aumento de tensões diplomáticas e de violações de direitos humanos. Relatórios de organizações não‑governamentais apontam execuções extrajudiciais, prisões arbitrárias e deslocamento forçado de comunidades rurais nas áreas de operação.
Além disso, a classificação de cartéis como organizações terroristas tem implicações jurídicas que dificultam processos de extradição e de cooperação judicial, ao mesmo tempo em que permite sanções econômicas mais severas contra indivíduos e empresas vinculadas ao tráfico.
Governos como o do México e da Colômbia têm denunciado a “interferência” americana, argumentando que a estratégia de Trump ignora as raízes socioeconômicas do narcotráfico e favorece apenas uma abordagem militar.
Perspectivas e desafios futuros
Especialistas apontam que a continuidade dessa política depende de fatores internos nos EUA, como a pressão de grupos de lobby e a opinião pública sobre intervenções no exterior. Enquanto isso, a região busca alternativas que incluam políticas de redução da demanda, desenvolvimento econômico e fortalecimento institucional.
Organizações como a Washington Office on Latin America sugerem a criação de um marco multilateral que dissocie o combate ao tráfico da luta contra o terrorismo, permitindo respostas mais equilibradas e respeitosas aos direitos humanos.
O futuro da chamada “guerra às drogas” na América Latina, portanto, permanece incerto, mas a tendência atual indica uma maior integração entre políticas de segurança e agendas ideológicas, o que pode aprofundar divisões regionais e gerar novos conflitos.








