A Rede Globo recebeu, entre janeiro de 2023 e outubro de 2026, R$ 274,4 milhões em anúncios do Executivo federal, segundo dados da Secretaria de Comunicação do Planalto divulgados pela VEJA. Esse montante representa um salto de 228% em relação aos quatro anos de governo anterior, liderado por Jair Bolsonaro. O aumento coloca a emissora no topo da lista de veículos que mais arrecadam verbas publicitárias do Estado.
Expansão da receita publicitária da Globo
O crescimento da Globo foi impulsionado não apenas pelos contratos diretos com a Secom, mas também pela rede de afiliadas espalhadas por todo o país, que repassam parte dos recursos para a matriz. Cada afiliada recebeu uma parcela proporcional ao alcance de sua audiência, o que ampliou o volume total registrado pela empresa. Esse modelo de distribuição garante que a presença da marca seja sentida em todas as regiões, desde grandes centros urbanos até cidades do interior.
Quando se somam os valores arrecadados pelas afiliadas, o total ultrapassa a soma das receitas de todas as demais emissoras que também negociam com o governo. Essa diferença evidencia a força de negociação da Globo, que consegue oferecer pacotes de mídia integrados, combinando televisão aberta, plataformas digitais e produção de conteúdo sob medida para campanhas governamentais.
Em períodos eleitorais, a demanda por espaço publicitário costuma aumentar, e a Globo não foi exceção. Até outubro de 2026, a receita proveniente da Secom já supera em 57% o que foi registrado em todo o ano de 2022, quando o pleito presidencial anterior ainda não havia começado. Na prática, isso significa que a emissora faturou R$ 63,2 milhões durante a campanha atual, contra apenas R$ 40,2 milhões em 2022.
Comparativo com concorrentes e histórico recente
O segundo lugar no ranking ficou com a Record, que acumulou R$ 128,6 milhões em contratos federais no mesmo período. Em seguida, o SBT recebeu R$ 70,8 milhões, enquanto a Band chegou a R$ 42 milhões. Embora todas as emissoras tenham registrado crescimento, o SBT foi a única que apresentou queda quando comparada ao último mandato de Bolsonaro, indicando uma variação na preferência do governo por determinados veículos.
Entre 2019 e 2022, a Record liderou a lista, alcançando R$ 93,5 milhões, mas perdeu a posição de destaque com a mudança de governo. Essa inversão demonstra como as estratégias de comunicação do Executivo podem mudar rapidamente, dependendo das prioridades políticas e da percepção de alcance de cada canal.
O panorama completo dos cinco maiores beneficiados com a publicidade federal pode ser visualizado na lista abaixo, que inclui valores absolutos e a variação percentual em relação ao período anterior.
- Globo – R$ 274,4 milhões (aumento de 228%)
- Record – R$ 128,6 milhões (variação positiva de 38%)
- SBT – R$ 70,8 milhões (queda de 5%)
- Band – R$ 42,0 milhões (aumento de 12%)
- Warner Media (TNT, Warner Channel, Space, TCM e infantis) – R$ 15,3 milhões (estável)
Impactos políticos e perspectivas futuras
O volume crescente de recursos destinados à publicidade oficial levanta questões sobre a transparência e a equidade na distribuição de verbas públicas. Analistas apontam que a concentração de recursos em um único conglomerado pode limitar a diversidade de vozes na mídia e favorecer narrativas alinhadas ao governo.
Ao mesmo tempo, a estratégia do Executivo de concentrar a maior parte da divulgação em canais com maior alcance pode ser vista como uma tentativa de otimizar a comunicação institucional, especialmente em um cenário de polarização política. A Globo, com sua presença multiplataforma, oferece ao governo a possibilidade de veicular mensagens simultaneamente na TV aberta, nas redes digitais e em aplicativos de streaming.
Do ponto de vista econômico, o aumento da receita publicitária fortalece o balanço da emissora, permitindo investimentos em produção de conteúdo, tecnologia de transmissão e expansão de sua infraestrutura digital. Esse reforço de caixa pode, por sua vez, gerar mais empregos e estimular a cadeia produtiva ligada à produção audiovisual.
Entretanto, especialistas em mídia alertam que a dependência excessiva de recursos governamentais pode criar vulnerabilidades, caso haja mudanças de gestão ou alterações nas políticas de comunicação oficial. A diversificação de fontes de receita, incluindo assinaturas digitais e parcerias comerciais, continua sendo uma estratégia essencial para garantir a sustentabilidade a longo prazo.
Olhar para o futuro implica observar como a Secom poderá ajustar seus critérios de seleção de veículos, possivelmente introduzindo novos parâmetros de avaliação de audiência, engajamento digital e custo-benefício. Caso a transparência seja aprimorada, espera‑se que outras emissoras, inclusive digitais, ganhem espaço nas próximas rodadas de negociação.
Em síntese, o recorde de arrecadação da Globo reflete tanto a força de seu modelo de negócios quanto as prioridades do governo atual. O debate sobre a concentração de verbas e a necessidade de um ambiente mediático plural permanece aberto, e continuará a influenciar as decisões de investimento tanto do setor privado quanto do público nos próximos anos.








