Em 29 de outubro de 2024, o rei Mohammed VI nomeou Fatima Ezzahra El Mansouri como chefe de governo do Marrocos, marcando a primeira vez que uma mulher ocupa o cargo mais alto do executivo no país. A cerimônia ocorreu no Palácio Real, em Rabat, e a nova líder recebeu a missão de montar um governo que consiga enfrentar uma série de crises econômicas e sociais.
Um percurso que rompe barreiras
Fatima El Mansouri nasceu em Marraquexe e formou-se em direito na Universidade de Montpellier, na França, antes de iniciar sua carreira como advogada. Em 2008, ingressou no Partido da Autenticidade e Modernidade (PAM), partido fundado por Fouad Ali El Himma, conselheiro próximo ao rei.
Aos 33 anos, foi eleita prefeita de Marraquexe, tornando‑se a primeira mulher a comandar a maior cidade do país. Reeleita em 2021, consolidou sua imagem como gestora competente, focada em projetos de urbanismo e infraestrutura.
Durante o governo de Aziz Akhannouch, El Mansouri assumiu o Ministério do Planejamento Territorial, Habitação e Política Urbana, ampliando sua experiência na administração pública antes de ser eleita deputada nas eleições de setembro de 2024.
O cenário político que a trouxe ao poder
Nas eleições parlamentares de 23 de setembro, o PAM conquistou 97 das 395 cadeiras da Câmara dos Representantes, tornando‑se o partido com maior número de assentos, ainda que longe da maioria absoluta de 198 cadeiras. Conforme a Constituição marroquina, o rei deve nomear como chefe de governo o líder do partido mais votado.
Sem maioria, El Mansouri precisará negociar alianças com partidos menores para garantir a estabilidade do novo executivo. Essa necessidade de coalizão traz à tona a complexidade do sistema multipartidário marroquino, onde acordos regionais e setoriais costumam definir a viabilidade de projetos de lei.
Desafios econômicos e sociais urgentes
O Marrocos enfrenta um cenário de desemprego elevado, sobretudo entre jovens, e desigualdade crescente entre áreas urbanas e rurais. A taxa de participação nas últimas eleições foi de apenas 38%, sinalizando um distanciamento da população em relação à política tradicional.
O PAM, durante a campanha, prometeu um crescimento econômico médio de 5% ao ano, controle da inflação em torno de 2% e a criação de, no mínimo, 1 milhão de empregos nos primeiros cinco anos de mandato. Para transformar essas metas em realidade, será imprescindível que a nova chefe de governo consiga aprovar reformas estruturais no parlamento.
- Reforma do código trabalhista para flexibilizar contratações;
- Incentivo ao investimento estrangeiro em setores de energia renovável;
- Desenvolvimento de programas de capacitação profissional para jovens;
- Ampliação de projetos de habitação social em áreas vulneráveis.
Além disso, a administração de El Mansouri terá de lidar com a preparação do Marrocos para a Copa do Mundo de 2030, que será coorganizada com Espanha e Portugal. O evento traz oportunidades de infraestrutura, mas também pressões sobre o orçamento nacional.
O papel do rei e os limites do cargo
Embora o chefe de governo detenha a responsabilidade de conduzir a política interna, o rei Mohammed VI mantém prerrogativas decisivas em segurança, defesa e política externa. Essa divisão de poderes cria um ambiente onde a colaboração entre a monarquia e o executivo é essencial para decisões estratégicas.
Fatima El Mansouri, ao assumir, torna‑se a segunda mulher a chefiar um governo em um país árabe, depois da tunisiana Najla Bouden. Seu mandato, portanto, tem um peso simbólico importante para a agenda de igualdade de gênero na região.
Para consolidar sua liderança, a nova chefe de governo precisará equilibrar as exigências do parlamento, as expectativas da população e as diretrizes do monarca, tudo isso enquanto mantém a confiança dos investidores internacionais.
Perspectivas para o futuro
Os analistas políticos apontam que o sucesso de El Mansouri dependerá da capacidade de transformar promessas eleitorais em políticas concretas, especialmente nas áreas de geração de emprego e redução da desigualdade. A construção de uma coalizão estável será o primeiro passo para avançar com reformas estruturais.
Se conseguir alinhar os interesses dos diferentes partidos, o governo pode alcançar um crescimento sustentável e melhorar a percepção da população sobre a eficácia das instituições. Caso contrário, o risco de instabilidade política pode aumentar, ameaçando tanto a agenda econômica quanto a preparação para a Copa do Mundo.
Em suma, a nomeação de Fatima El Mansouri representa um marco histórico e um teste de liderança em um momento crítico para o Marrocos. Seu desempenho nos próximos anos será observado de perto não apenas pelos marroquinos, mas também pelos observadores internacionais que acompanham a evolução da democracia e da inclusão de gênero na região.








