Um estudo recente da Unicamp revelou como a falta de reconhecimento profissional pode desencadear problemas graves de saúde mental entre trabalhadores brasileiros. A pesquisa, conduzida pelo professor Ricardo Bertoni Pompeu, foi divulgada em setembro de 2024 no Jornal da Unicamp e abrangeu entrevistas com 18 profissionais de diferentes setores. O levantamento destaca a relação entre o esforço invisível no trabalho e o surgimento de doenças psicossociais.
O que é o reconhecimento no ambiente de trabalho
O conceito de reconhecimento vai além de elogios pontuais; ele envolve a validação das competências, a visibilidade das contribuições e a justiça nas recompensas. Segundo a teoria de Axel Honneth, a busca por reconhecimento é um motor central da dignidade humana e da motivação no contexto organizacional.
Quando essa necessidade não é atendida, o trabalhador sente-se desvalorizado, o que pode gerar sentimentos de inadequação e isolamento. A falta de reconhecimento, portanto, não é apenas uma questão de autoestima, mas um fator estrutural que influencia a performance e o bem‑estar.
Na prática, o reconhecimento pode se manifestar de diversas formas, como feedback construtivo, oportunidades de desenvolvimento, transparência nas avaliações e remuneração alinhada ao esforço. Cada um desses elementos contribui para um clima organizacional saudável.
Como o esforço invisível afeta a saúde
O pesquisador utilizou a Psicodinâmica do Trabalho, de Christophe Dejours, para analisar o chamado “trabalho real”, que inclui esforços cognitivos, físicos, afetivos, emocionais e psíquicos que raramente são contabilizados nas métricas de produtividade.
Esses esforços invisíveis são fontes de tensão crônica. Por exemplo, ao elaborar um relatório, o profissional não só manipula dados, mas também decide a profundidade da análise, lida com desconfortos físicos como cadeiras inadequadas e enfrenta pressões emocionais ao atender expectativas conflitantes.
- Esforço cognitivo: tomada de decisão, organização de informações e solução de problemas complexos.
- Esforço físico: postura inadequada, iluminação deficiente e uso prolongado de equipamentos.
- Esforço afetivo: adaptação a normas que limitam a criatividade ou a autonomia.
- Esforço emocional: gerenciamento de frustração, raiva e ansiedade diante de metas inalcançáveis.
- Esforço psíquico: dúvidas constantes sobre a própria competência e medo de julgamentos.
Quando esses componentes são ignorados pelos gestores, o trabalhador acumula carga psicológica que pode evoluir para transtornos como ansiedade, depressão e síndrome de burnout.
Além disso, a invisibilidade desses esforços cria uma disparidade entre o que é percebido como produção (resultado final) e o que realmente é realizado (processo interno). Essa discrepância alimenta a sensação de injustiça e intensifica o sofrimento.
Estudos apontam que a exposição prolongada a esse tipo de sobrecarga está associada a alterações fisiológicas, como aumento da pressão arterial, distúrbios do sono e respostas inflamatórias crônicas.
Casos reais e novas patologias organizacionais
Entre os 18 entrevistados, que tinham entre 20 e 40 anos, surgiram relatos que ilustram a toxicidade de ambientes onde o reconhecimento é escasso. Um vendedor, por exemplo, aceitou reduzir sua renda para ser promovido a subgerente, abrindo mão de comissões essenciais. Quando a empresa contratou outra pessoa para a vaga, ele foi designado a treinar o novo colega, o que desencadeou gagueira, ansiedade e sintomas físicos.
Outro caso envolveu uma analista de TI que, apesar de cumprir metas acima da média, nunca recebeu feedback positivo. O constante sentimento de invisibilidade levou ao desenvolvimento de insônia crônica e crises de pânico.
Essas narrativas permitiram ao pesquisador identificar duas patologias ainda pouco discutidas no âmbito corporativo:
- Contingencialidade: condição em que o trabalhador sente que sua permanência depende de concessões pessoais excessivas, gerando vulnerabilidade e estresse constante.
- Disjuntividade: ruptura entre o trabalho prescrito e o trabalho real, provocando desorientação e desgaste emocional.
Ambas as patologias são alimentadas pela falta de reconhecimento e pela sobrecarga de esforços não mensurados. Elas representam um alerta para gestores que ainda medem desempenho apenas por indicadores de produção.
Para mitigar esses efeitos, especialistas recomendam a implementação de políticas de reconhecimento estruturado, avaliações de carga de trabalho que incluam aspectos qualitativos e a criação de canais seguros para que os colaboradores expressem suas necessidades.
Investir em treinamentos que sensibilizem líderes sobre a importância do reconhecimento pode transformar a cultura organizacional, reduzindo a incidência de doenças psicossociais e aumentando a retenção de talentos.
Em síntese, a pesquisa evidencia que o reconhecimento no ambiente de trabalho não é um luxo, mas uma necessidade básica para a saúde mental. Ignorar essa demanda pode gerar consequências graves, tanto para o indivíduo quanto para a performance da empresa.








