Em dezembro de 2024, o ex‑presidente do Banco de Brasília (BRB) intensificou a pressão interna para concluir operações de compra de carteiras de crédito com o Banco Master, mesmo após receber alertas de risco. A prática foi revelada em relatório parcial da Polícia Federal, que investiga supostos esquemas de fraude envolvendo ambas as instituições.
Pressão para acelerar as negociações
Paulo Henrique Costa enviou mensagens exigindo agilidade, estabelecendo prioridades claras e indicando quais transações deveriam ser finalizadas imediatamente. Em um dos e‑mails, ele solicitou que fossem analisados “71 mm” – referência a R$ 71 milhões – de forma rápida, demonstrando a urgência que impôs ao setor de análise de risco.
O diretor de Finanças do BRB, Dario Oswaldo Garcia Junior, respondeu que iria “apertar” a equipe responsável, confirmando a postura de aceleração das decisões. Essa troca de mensagens ocorreu enquanto a diretoria já tinha conhecimento de problemas nas carteiras apresentadas pelo Master.
Operações de alto valor e estratégias de fracionamento
Em 23 de dezembro, Costa listou cinco operações que somavam aproximadamente R$ 1 bilhão, incluindo duas de R$ 408 milhões e R$ 200 milhões, além de uma terceira de R$ 196 milhões. O objetivo era concluir essas transações ainda no mesmo dia, evidenciando a tentativa de atender às demandas de liquidez do Banco Master.
O relatório da PF aponta que 13 das 14 notas executivas – documentos que iniciam o processo de aquisição – foram aprovadas antes da conclusão dos pareceres técnicos, violando procedimentos internos de controle.
- Limite de negociação da Diretoria Colegiada: R$ 750 milhões por operação.
- Fracionamento das aquisições para permanecer dentro do limite.
- 25 transações aprovadas totalizando R$ 17,5 bilhões.
Destes, 21 foram fixadas exatamente em R$ 750 milhões, ultrapassando em 23,3 vezes o limite permitido para deliberação sem a intervenção do Conselho de Administração.
Alertas ignorados e responsabilidade institucional
Os alertas recebidos por Costa incluíam margens incompatíveis, índices de inadimplência de 28 % e 15 % e falhas nas planilhas de cálculo. Apesar disso, a diretoria colegiada (DICOL) não impediu a aprovação das notas executivas, contrariando sua própria responsabilidade de barrar negociações com informações incompletas.
A investigação ainda destaca que a Polícia Federal indiciou 15 pessoas, entre elas Daniel Vorcaro, ex‑presidente do BRB, e outros executivos que participaram das decisões. O relatório ainda aguarda a conclusão de perícias e depoimentos, e a PF solicitou ao Supremo Tribunal Federal mais 60 dias para avançar nas apurações.
O caso evidencia como a pressão por resultados financeiros pode sobrepor a análise de risco, gerando potenciais prejuízos ao patrimônio público e colocando em xeque a governança de instituições financeiras controladas pelo Estado.
Enquanto as defesas dos acusados são buscadas pelos veículos de comunicação, o debate sobre a necessidade de reforçar mecanismos de controle interno ganha força. Especialistas apontam que a transparência nas negociações e a observância rigorosa dos limites de aprovação são essenciais para evitar a repetição de situações semelhantes.
O cenário descrito no relatório parcial da PF serve de alerta para outras instituições que lidam com operações de grande porte, reforçando a importância de auditorias independentes e da participação efetiva dos conselhos de administração nas decisões estratégicas.
Com a continuidade das investigações, o futuro das transações envolvendo o Banco Master ainda está incerto, mas o caso já provocou discussões sobre a necessidade de revisão de normas internas e de maior supervisão por parte dos órgãos reguladores.








