No dia 30 de outubro de 2026, durante a apuração do primeiro turno das eleições presidenciais, pesquisadores divulgaram um estudo que questiona a tese de que a alta taxa de abstenção teria tirado votos de Luiz Inácio Lula da Silva. O levantamento analisou milhares de seções eleitorais em todo o país, comparando a variação da participação com o desempenho dos principais candidatos.
Metodologia e abrangência da pesquisa
O estudo foi conduzido pelo cientista político Carlos Vasconcellos e sua equipe, que cruzaram dados de mais de 460 mil seções eleitorais dos pleitos de 2022 e 2026. Foram avaliadas três categorias de comportamento da abstenção: queda superior a um ponto percentual, estabilidade e aumento. Cada categoria foi comparada com a variação percentual da votação de Lula, de Flávio Bolsonaro e de Jair Bolsonaro.
Para garantir a robustez dos resultados, a pesquisa utilizou técnicas estatísticas padrão na ciência política, incluindo regressões lineares e testes de significância. Os pesquisadores também segmentaram a amostra por regiões macro, permitindo uma análise detalhada do Norte, Nordeste, Sudeste e Sul.
Resultados nacionais
Os números revelaram que a abstenção no primeiro turno de 2026 foi de 21,08%, representando um aumento de apenas 0,14 ponto percentual em relação a 2022. Apesar da leve elevação, a distribuição regional mostrou padrões divergentes: a ausência de eleitores cresceu nos estados do Sul e Sudeste, enquanto diminuiu no Norte e Nordeste.
Quando se analisou a relação entre a variação da abstenção e a perda de votos de Lula, os resultados foram surpreendentes. Nas seções em que a abstenção caiu, o petista registrou redução de 3,83% na votação em comparação com 2022. Nas áreas de abstenção estável, a queda foi de 3,51%, e nas que registraram aumento, a redução foi de 3,56%.
Essas diferenças são tão pequenas que não sustentam a hipótese de que a abstenção tenha sido o principal fator da perda de votos. Como afirmou Vasconcellos, “não há nenhuma relação, pelo menos com essa metodologia que a gente adotou, que é muito padrão dentro da ciência política”.
Análise regional: foco no Nordeste
O Nordeste, tradicional bastião do PT, foi examinado separadamente para verificar se a dinâmica local poderia mudar o panorama nacional. Nas seções nordestinas onde a abstenção diminuiu, Lula teve variação negativa de 3,42%, enquanto Flávio Bolsonaro registrou crescimento de 4,48%.
Curiosamente, nos locais onde a abstenção aumentou mais de três pontos percentuais, Lula perdeu menos votos do que nas áreas com participação crescente. Esse comportamento contradiz a expectativa de que a ausência de eleitores explicaria a queda de sua votação.
Esses achados reforçam a conclusão de que, mesmo em regiões historicamente favoráveis ao PT, a variação da abstenção não acompanhou o desempenho de Lula de forma compatível com a tese da abstenção como causa principal.
Interpretação dos achados
Com base nos dados, a principal explicação apontada pelos autores é a mudança de preferência de parte do eleitorado que havia votado em Lula em 2022. Alguns eleitores podem ter migrado para Flávio Bolsonaro, optado por candidatos de terceira via ou simplesmente anulado o voto.
Vasconcellos resumiu a ideia central ao dizer: “A principal hipótese é que quem foi votar simplesmente mudou de voto”. Essa mudança de comportamento eleitoral, segundo a equipe, tem mais peso do que a simples não comparecimento às urnas.
A pesquisa, entretanto, reconhece suas limitações. Ela não identifica individualmente como cada eleitor votou nos dois pleitos, mas permite observar padrões agregados de participação e preferência.
Implicações para o cenário político
O levantamento contesta uma narrativa que se espalhou rapidamente entre analistas logo após a apuração, a qual atribuía a queda de votos de Lula ao aumento da abstenção. Ao demonstrar a ausência de correlação significativa, o estudo abre espaço para novas discussões sobre estratégias de campanha e mobilização de eleitores.
Para os partidos, a mensagem é clara: investir em estratégias de convencimento pode ser mais eficaz do que focar apenas em aumentar a comparecência. A mudança de voto indica que o eleitorado está em movimento, buscando alternativas que ainda não foram totalmente mapeadas.
Em termos de futuro eleitoral, o cenário sugere que a dinâmica de voto pode se tornar ainda mais volátil, com a terceira via ganhando força em regiões onde antes havia hegemonia partidária.
- Abstenção nacional: 21,08% em 2026
- Variação da abstenção em relação a 2022: +0,14 ponto percentual
- Perda de votos de Lula nas seções com queda de abstenção: -3,83%
- Perda de votos de Lula nas seções com aumento de abstenção: -3,56%
- Crescimento de Flávio Bolsonaro nas seções nordestinas com redução de abstenção: +4,48%
Em suma, a pesquisa indica que a explicação simplista de que a abstenção foi o vilão da derrota parcial de Lula não se sustenta diante de uma análise detalhada e regionalizada. O eleitorado brasileiro demonstra, mais uma vez, sua capacidade de reavaliar escolhas entre um pleito e outro, exigindo dos candidatos estratégias mais sofisticadas e adaptáveis.








