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Estratégia canadense para driblar o protecionismo dos EUA: lições para o Brasil

Em 15 de outubro de 2024, a revista The Economist publicou na capa uma análise sobre a estratégia do Canadá para enfrentar o protecionismo dos Estados Unidos, oferecendo lições para países como o Brasil. O artigo destaca a atuação do primeiro‑ministro Mark Carney, que busca reduzir a dependência de Washington enquanto reforça a soberania nacional. Essa abordagem surge em meio ao declínio acelerado do multilateralismo nas últimas duas décadas.

Desafios do multilateralismo e a resposta canadense

A comunidade internacional tem assistido à desintegração de regras compartilhadas, consequência direta da diplomacia hiper‑transacional adotada pelos EUA desde 2016. Países que não ocupam posição de superpotência sentem a pressão de adaptar suas políticas externas para sobreviver a esse novo cenário. O Canadá, ao reconhecer sua condição de potência média, optou por um caminho pragmático e flexível.

Mark Carney, antes governador do Banco da Inglaterra, assumiu a liderança canadense com a convicção de que a cooperação regional não seria suficiente para proteger os interesses nacionais. Em seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, ele ressaltou a necessidade de criar coalizões pontuais que possam atuar como contrapeso ao poderio americano e chinês. Essa visão realista evita ilusões de substituir os gigantes, mas garante espaço para mitigar impactos negativos.

A revista enfatiza que a resposta não está apenas na diplomacia tradicional, mas também na capacidade de mobilizar a sociedade interna em torno de objetivos claros. Ao transformar o choque tarifário americano em um catalisador de unidade nacional, o governo canadense conseguiu elevar sua aprovação popular para cerca de 70 %.

Estratégias de diversificação e acordos globais

Nos primeiros 18 meses de mandato, o Canadá assinou mais de vinte acordos de comércio e segurança distribuídos em cinco continentes. Entre os parceiros estratégicos estão a União Europeia, a Índia, o Japão e, de forma cautelosa, a China. Cada pacto foi estruturado para reduzir barreiras tarifárias e ampliar o acesso a cadeias de suprimentos alternativas.

Esses acordos não foram meramente formais; eles incluíram cláusulas de revisão periódica que permitem ajustes rápidos diante de mudanças políticas. O objetivo central foi criar um mosaico de relacionamentos que reduzisse a vulnerabilidade a sanções unilaterais.

Para ilustrar a amplitude da iniciativa, segue uma lista dos principais acordos firmados:

  • Acordo de Livre‑Comércio com a União Europeia (UE‑CA), ampliando o acesso a bens manufaturados e agrícolas.
  • Parceria de Segurança Estratégica com a Índia, focada em tecnologia de defesa e intercâmbio de inteligência.
  • Memorando de Entendimento com o Japão para cooperação em energia limpa e infraestrutura digital.
  • Renovação de tratado comercial com a Austrália, incluindo cláusulas de proteção contra práticas discriminatórias.

Essas iniciativas demonstram que a diversificação não se limita ao comércio, mas abrange também a cooperação em áreas estratégicas como tecnologia, energia e defesa.

Reformas internas e lições para o Brasil

O ponto de virada para o Canadá ocorreu quando o governo transformou a indignação popular provocada pelas tarifas americanas em apoio a um ambicioso plano econômico. O pacote de reformas combinou estímulos fiscais, desregulamentação de setores críticos, corte de gastos públicos ineficientes e investimentos em produtividade.

Entre as medidas destacadas estão:

  • Redução de impostos sobre exportações de commodities agrícolas, aumentando a competitividade internacional.
  • Desburocratização de processos de licenciamento ambiental para projetos de energia renovável.
  • Criação de um fundo de inovação voltado para startups de tecnologia verde.
  • Revisão de subsídios a indústrias tradicionais, realocando recursos para setores de alta tecnologia.

Essas ações foram acompanhadas por um aumento planejado dos gastos militares, de 1,3 % para 2 % do PIB, com meta de 4 % até 2030, e pela busca de fornecedores alternativos fora da esfera norte‑americana. A estratégia reforçou a soberania nacional e diminuiu a exposição a pressões externas.

Para o Brasil, o diagnóstico da Economist funciona como um espelho que reflete desafios semelhantes: vulnerabilidade ao protecionismo, necessidade de modernizar a infraestrutura produtiva e urgência em diversificar parceiros comerciais. O país pode adaptar o modelo canadense ao seu contexto, priorizando reformas estruturais que aumentem a competitividade.

Primeiramente, o Brasil deve acelerar a negociação de acordos comerciais com blocos que ainda não mantêm relações aprofundadas, como a ASEAN e a África Subsaariana. Em segundo lugar, é fundamental criar um ambiente regulatório que favoreça investimentos estrangeiros diretos, especialmente em setores de alta tecnologia.

Além disso, a experiência canadense demonstra que a comunicação transparente com a população é essencial para legitimar reformas impopulares. Ao apresentar os benefícios de longo prazo e envolver lideranças locais, o governo brasileiro pode evitar a “maldição de Juncker” que costuma impedir mudanças profundas.

Outra lição crucial refere‑se ao fortalecimento da defesa nacional. O aumento planejado dos gastos militares canadenses visa garantir autonomia estratégica e reduzir a dependência de equipamentos americanos. O Brasil, com seu programa de defesa em expansão, pode seguir esse caminho, investindo em produção local de armamentos e diversificando fornecedores.

Em síntese, a estratégia canadense combina três pilares: diversificação externa, reformas econômicas internas e fortalecimento da soberania militar. Quando esses elementos são articulados de forma coerente, as potências médias conseguem criar resiliência frente a choques externos.

O cenário global atual, marcado por tensões comerciais e instabilidade institucional, exige respostas rápidas e bem‑calculadas. Países como o Brasil, que ainda dependem fortemente de mercados tradicionais, precisam repensar suas prioridades estratégicas.

Ao observar o caso do Canadá, fica claro que a adaptação não significa imitar, mas aprender a estruturar políticas que respondam às especificidades nacionais. O Brasil tem potencial para transformar sua posição de vulnerabilidade em vantagem competitiva, desde que adote uma agenda de reformas ambiciosa e mantenha um olhar atento às oportunidades de parceria internacional.

Portanto, a lição canadense não é apenas um exemplo de sobrevivência, mas um convite à proatividade. A capacidade de transformar crises em oportunidades de crescimento pode definir o futuro econômico e geopolítico do Brasil nas próximas décadas.

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