Um estudo recente publicado na revista Obesity Medicine, conduzido por pesquisadores de universidades e institutos de Goiânia, Florianópolis e Rio de Janeiro, revelou que a perda de peso com medicamentos como Ozempic pode esconder riscos para a saúde física quando não há prática de exercícios. A pesquisa, divulgada em 2024, analisou milhares de pacientes que iniciaram o tratamento com análogos de GLP‑1. O foco foi entender como a balança pode enganar ao não refletir mudanças reais na capacidade funcional do corpo.
A promessa dos análogos de GLP‑1
Os análogos de GLP‑1, entre eles Ozempic, Wegovy e Mounjaro, ganharam destaque mundial ao demonstrar reduções de peso significativas em curtos períodos. Eles atuam diminuindo o apetite, retardando o esvaziamento gástrico e aumentando a sensação de saciedade. Por isso, milhões de pessoas passaram a considerá‑los como solução quase milagrosa para a obesidade.
Entretanto, a eficácia na perda de peso não se traduz automaticamente em melhora da saúde global. Quando o medicamento é usado isoladamente, a balança pode baixar, mas outros parâmetros fisiológicos permanecem inalterados ou até pioram. Essa discrepância gerou um debate intenso entre endocrinologistas, nutricionistas e especialistas em medicina esportiva.
Por que a massa muscular não é o único indicador
Tradicionalmente, a preocupação ao usar medicamentos que provocam emagrecimento tem sido a preservação da massa magra. Estudos anteriores mostraram que a perda de músculo pode levar a fraqueza, quedas e maior risco de morbidades em idosos. Contudo, os autores brasileiros apontam que o foco exclusivo na quantidade de músculo ignora o que realmente importa: a funcionalidade do organismo.
Um ensaio dinamarquês chamado S‑LiTE dividiu pacientes em dois grupos: um recebeu apenas o fármaco, enquanto o outro combinou o medicamento com um programa estruturado de exercício aeróbico e de resistência. Ambos os grupos perderam peso de forma semelhante, mas apenas o grupo que se exercitou apresentou melhorias no condicionamento cardiorrespiratório e na capacidade de realizar atividades cotidianas, como subir escadas sem ofegar.
Esses resultados reforçam que condicionamento cardiorrespiratório e força muscular são preditores mais robustos de mortalidade do que o simples volume de músculo. Uma pessoa magra e sedentária pode ter risco cardiovascular maior do que alguém com sobrepeso, mas com boa aptidão física. A balança, portanto, não conta toda a história.
Exercício como prescrição indispensável
Os pesquisadores defendem que o exercício deve ser encarado como uma intervenção terapêutica por direito próprio, e não apenas como um coadjuvante para “segurar o músculo”. Marcos Fortes, um dos autores, destaca que a atividade física traz benefícios múltiplos: melhora do sono, regulação da pressão arterial, aumento da sensibilidade à insulina, densificação óssea, redução da frequência cardíaca de repouso e elevação da qualidade de vida.
Além disso, a prática regular de exercícios é crucial para manter o peso perdido a longo prazo. A Associação Americana do Coração (AHA) já declarou que a atividade física durante e após o emagrecimento não é opcional, mas parte integrante do tratamento.
- Redução do risco de doenças cardiovasculares;
- Preservação da massa óssea e prevenção de osteoporose;
- Melhora da sensibilidade à insulina, reduzindo risco de diabetes tipo 2;
- Estabilização do peso corporal após a fase de perda;
- Benefícios psicológicos, como diminuição de ansiedade e depressão.
Vale ainda notar que os métodos de medição de massa magra usados em alguns estudos podem superestimar a perda de músculo, confundindo a redução de água e de outros tecidos com perda real de fibras musculares. Esse artefato de medição pode criar a impressão de que o medicamento está “roubando” músculo, quando na prática parte desse “perda” pode ser apenas desidratação.
Apesar das ressalvas, a preservação da massa muscular continua essencial, sobretudo em populações vulneráveis como idosos, pacientes com fraqueza pré‑existente e indivíduos submetidos a cirurgias ortopédicas. Nesses casos, a combinação de análogo de GLP‑1 com treinamento de resistência pode ser a estratégia mais segura.
O estudo brasileiro utilizou a liraglutida, um análogo mais antigo da família GLP‑1, administrado diariamente. Ainda não está claro se os mesmos achados se aplicam aos fármacos mais potentes, como a semaglutida e a tirzepatida, que promovem reduções de peso ainda maiores. Essa lacuna abre espaço para novas investigações que explorem a interação entre dose, velocidade de perda de gordura e necessidade de estímulo físico.
Em síntese, a mensagem central é simples e poderosa: a caneta que hoje transforma a medicina da obesidade não substitui o tênis de corrida. O emagrecimento saudável exige uma abordagem integrada, onde o medicamento e o exercício caminham lado a lado, garantindo não apenas menos quilos, mas também mais vida e mais qualidade de movimento.








