Nos Estados Unidos, a população aguarda as eleições de meio de mandato previstas para 3 de novembro de 2026, quando serão renovados todos os 435 assentos da Câmara dos Representantes e 35 vagas no Senado. A preocupação maior vem do temor de que o ex‑presidente Donald Trump, que ainda questiona a legitimidade de pleitos anteriores, não aceite um eventual resultado desfavorável aos republicanos.
O que são as midterms e por que elas importam
As chamadas “midterms” são o pleito intermediário que ocorre a cada quatro anos, entre as eleições presidenciais. Além das casas do Congresso, dezenas de governadores e cargos estaduais de alto nível também são disputados, o que pode mudar drasticamente o equilíbrio de poder nos EUA.
Historicamente, essas eleições têm sido desfavoráveis ao presidente em exercício, funcionando como um termômetro da popularidade do mandatário. Em 2026, o cenário é ainda mais sensível porque o Partido Democrata tem a chance de retomar o controle tanto da Câmara quanto do Senado, algo que só ocorreu quatro vezes nos últimos cinquenta anos.
Trump e o histórico de contestação do processo eleitoral
Desde 2016, Donald Trump semeia dúvidas sobre a integridade das urnas eletrônicas, dos votos por correio e, sem apresentar provas, afirma que a vitória de Joe Biden em 2020 foi fraudada. Essa retórica enfraqueceu a confiança nas instituições e elevou a polarização política.
Com aprovação de apenas 32 % – o menor índice de sua carreira – Trump tem sido pressionado por uma crise econômica marcada por alta nos preços dos combustíveis e inflação impulsionada pela guerra no Oriente Médio.
Pesquisa aponta medo de retaliação caso os republicanos percam
Um levantamento conjunto do The Washington Post, ABC News e do instituto Ipsos, realizado entre 9 e 13 de outubro, entrevistou 2 545 adultos americanos. Os resultados revelam que 70 % dos eleitores acreditam que Trump não aceitará o resultado das midterms caso os republicanos sejam derrotados.
Os números detalham ainda mais a desconfiança dentro do próprio Partido Republicano: 36 % dos eleitores desse bloco não acreditam que Trump respeitaria a derrota de aliados. Entre independentes, esse índice sobe para 77 %, e entre democratas, para 94 %.
Entretanto, a confiança geral no processo eleitoral permanece alta: 67 % dos republicanos e 70 % dos democratas consideram que as urnas são confiáveis, enquanto 60 % dos americanos acreditam que os votos são contados com precisão.
- 70 % temem que Trump rejeite o resultado.
- 36 % dos republicanos duvidam da aceitação da derrota.
- 77 % dos independentes compartilham da mesma preocupação.
- 94 % dos democratas acreditam que Trump não aceitará a derrota.
Constituição, controle estatal e declarações de Trump
Nos EUA, a administração das eleições é responsabilidade dos estados, e o presidente não tem poder direto sobre a condução das votações. Mesmo assim, Trump já declarou que pretende “nacionalizar a votação” e assumir o controle das urnas.
Em entrevista ao The New York Times, ele chegou a lamentar não ter mobilizado o Exército para “tomar posse” das urnas eletrônicas após a derrota em 2020. Durante seu segundo mandato, o governo enfraqueceu agências federais encarregadas de proteger o processo eleitoral e tentou limitar o voto por correio, medida que acabou sendo bloqueada pela Suprema Corte.
Além disso, Trump espalhou informações falsas sobre a suposta participação de não‑cidadãos nas eleições e alegou interferência estrangeira nas midterms, sem evidências concretas. Quando questionado pela NBC News em fevereiro de 2026, ele afirmou que confiaria nos resultados “se o pleito for honesto”.
Essas declarações alimentam o medo de que, caso os republicanos percam o Congresso, o ex‑presidente possa usar sua influência para contestar o resultado, pressionar autoridades estaduais ou até incitar protestos massivos.
O que os líderes democratas pretendem fazer
Segundo a pesquisa, 61 % dos entrevistados acreditam que os líderes do Partido Democrata aceitariam um revés nas urnas de forma pacífica e buscar‑iam soluções institucionais para garantir a continuidade do processo democrático.
Os democratas, por sua vez, reforçam a necessidade de proteger a integridade das eleições, defendendo a expansão do voto por correio, a modernização das urnas eletrônicas e a manutenção de supervisão independente por agências como a Federal Election Commission.
Impactos na confiança do eleitorado
Embora a maioria dos americanos ainda confie na lisura das eleições, a confiança entre os republicanos diminuiu em comparação ao pleito presidencial de 2024, quando menos da metade acreditava que a apuração seria justa. Esse declínio pode gerar maior vulnerabilidade a teorias da conspiração e a movimentos de contestação.
Especialistas apontam que a polarização crescente, combinada com a retórica inflamatória de Trump, pode transformar as midterms de 2026 em um ponto de inflexão para a democracia americana, exigindo respostas rápidas das instituições para preservar a ordem constitucional.
Em resumo, as eleições de meio de mandato de 2026 representam mais que a renovação de cadeiras no Congresso; são um teste de resistência institucional diante de um líder que historicamente desafia os resultados eleitorais. O futuro da governança dos Estados Unidos dependerá, em grande parte, da capacidade de todos os atores políticos de respeitar a vontade popular e de manter a confiança do eleitorado no processo democrático.








