A prestação de contas parcial das campanhas presidenciais de 2026, divulgada pelo Tribunal Superior Eleitoral, revelou que os maiores doadores individuais de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) são empresários ligados ao agronegócio. O levantamento, que cobre contribuições até o início de novembro, mostra a força econômica do setor na disputa eleitoral. As informações foram publicadas no último dia 12 de outubro, pouco antes do encerramento do prazo de entrega das contas.
Doadores do agronegócio nas campanhas presidenciais
Mesmo com a proibição de doações de pessoas jurídicas, a legislação permite que indivíduos façam aportes dentro de limites estabelecidos. Essa brecha tem sido amplamente utilizada por empresários que enxergam no governo federal um aliado para a manutenção de políticas favoráveis ao campo.
No ranking de doadores de Lula, o primeiro colocado é Erasmo Carlos Battistella, CEO da Be8, empresa produtora de biodiesel. Até o momento, Battistella contribuiu com R$ 500 mil, valor que corresponde a 0,03% do total arrecadado pela campanha. Sua participação destaca a importância dos biocombustíveis dentro da agenda de desenvolvimento sustentável do governo.
Já a lista de Flávio Bolsonaro tem como líder Eloi Vitório Marchett, empresário do setor de soja que já acumula doações que somam R$ 2 milhões. Marchett tem forte presença nas cadeias de produção e exportação de grãos, e seu apoio financeiro reflete a expectativa de políticas que favoreçam a desburocratização e a abertura de novos mercados.
O levantamento do G1 indica que ainda há muitos nomes a serem declarados, já que o prazo para a entrega completa das contas termina em 14 de novembro. Contudo, os números já divulgados apontam que o agronegócio responde por cerca de 25% do PIB brasileiro, tornando seus representantes atores estratégicos nas eleições.
Propostas de Luiz Inácio Lula da Silva para o agronegócio
O plano de governo de Lula coloca o crédito rural como pilar central. Por meio do Plano Safra, o candidato pretende ampliar a disponibilidade de recursos financeiros para produtores de todos os portes, com especial atenção à agricultura familiar.
- Ampliação do crédito via Pronaf: linhas de financiamento com juros reduzidos para pequenos agricultores.
- Digitalização dos serviços: implantação de plataformas online para simplificar a solicitação de recursos.
- Renovação do Plano Safra da Agricultura Familiar: metas de aumento de investimento em tecnologia e assistência técnica.
Lula também propõe a expansão do seguro rural e a criação de um Programa Nacional de Resiliência Climática. As medidas incluem conservação do solo, ampliação da irrigação, adoção de agricultura de precisão e modernização dos sistemas de previsão meteorológica.
- Instalação de sensores de umidade para otimizar o uso da água.
- Incentivo ao plantio direto e à rotação de culturas.
- Capacitação de produtores para o uso de softwares de gestão agrícola.
No campo da energia renovável, o candidato pretende fortalecer a produção de biocombustíveis, como etanol, biodiesel e o combustível sustentável de aviação (SAF). Além disso, há um plano para transformar resíduos agroindustriais em bioenergia e biogás, reduzindo a dependência de fontes fósseis.
- Crédito fiscal para fábricas que utilizem biomassa.
- Parcerias com a Embrapa para pesquisa em novas matérias‑primas.
- Financiamento de projetos de captura de metano em currais e silos.
Na esfera comercial, Lula promete intensificar a diplomacia agrícola, buscando abrir novos mercados para os produtos brasileiros. Durante sua gestão atual, foram criados 656 novos acordos comerciais, e o candidato pretende ampliar esse número, facilitando a exportação de grãos, carnes e frutas.
O plano ainda inclui a estimulação da emissão de títulos de agronegócio no mercado de capitais, o apoio a pesquisas tecnológicas e a atração de investimentos privados para a transição ecológica do campo.
Para a agricultura familiar, há propostas de ampliação da assistência técnica, facilitação do acesso a máquinas adaptadas e fortalecimento do Garantia‑Safra. Também se prevê a manutenção de programas de compra de alimentos e a ampliação da presença de produtos in natura nas merendas escolares.
Além disso, o programa de Lula contempla reforma agrária, regularização fundiária, incentivo à agroecologia, acesso à água em regiões de estiagem e apoio à pesca artesanal e à aquicultura familiar.
Propostas de Flávio Bolsonaro e os desafios do setor
Flávio Bolsonaro apresenta um plano que enfatiza a desburocratização e a competitividade internacional. O candidato defende a simplificação dos processos de licenciamento ambiental e a redução de custos operacionais para produtores.
- Desburocratização: criação de um “guichê único” para regularizações fundiárias.
- Incentivo à exportação: renegociação de acordos comerciais para reduzir tarifas sobre soja e carne bovina.
- Infraestrutura logística: investimentos em rodovias, ferrovias e terminais portuários nas regiões produtoras.
Na área de tecnologia, Flávio propõe a ampliação de parcerias público‑privadas para a implantação de agricultura de precisão, uso de drones e monitoramento via satélite. O objetivo é aumentar a produtividade sem elevar os custos de produção.
O candidato também destaca a importância de políticas de crédito mais ágeis, com linhas de financiamento que tenham prazos mais curtos e garantias simplificadas, permitindo que pequenos e médios produtores acessem recursos rapidamente.
Um ponto de atenção no plano de Flávio é a necessidade de equilibrar a expansão da produção com a preservação ambiental. Embora o discurso enfatize a competitividade, críticos apontam que a falta de medidas robustas de conservação pode gerar conflitos com movimentos sociais e organizações ambientais.
Expectativas e implicações para o futuro do agronegócio brasileiro
Os dados de doadores revelam que o agronegócio está profundamente inserido na disputa política de 2026. A presença de grandes empresários nas campanhas indica que as decisões de governo terão impacto direto nas cadeias produtivas do campo.
Se eleito, Lula deve avançar em políticas de sustentabilidade, crédito rural e apoio à agricultura familiar, enquanto Flávio Bolsonaro tende a priorizar a desburocratização e a expansão de exportações. Ambas as linhas de governo podem gerar oportunidades, mas também desafios, especialmente no que diz respeito à conservação dos recursos naturais.
Analistas apontam que a escolha do eleitorado pode definir o ritmo de modernização tecnológica do setor, a capacidade de adaptação às mudanças climáticas e a posição do Brasil nos mercados globais. O próximo presidente terá, portanto, a responsabilidade de equilibrar crescimento econômico, segurança alimentar e preservação ambiental.








