Em março de 2024, durante o Congresso Brasileiro de Endocrinologia, foi divulgado o primeiro consenso nacional sobre reposição de testosterona. O documento, elaborado por três entidades médicas, estabelece critérios claros para identificar pacientes que realmente precisam do hormônio. A iniciativa surge em meio ao crescente uso indiscriminado da substância por influenciadores e academias.
História e mito da testosterona
Desde o Império Romano, a testosterona – então conhecida apenas como “elixir da virilidade” – foi celebrada como fonte de energia e potência sexual. No século XIX, antes da síntese química, ainda se consumiam testículos de animais como suposto reforço hormonal. Hoje, a mesma promessa se refaz nas redes sociais, onde a substância é apresentada como solução para músculos maiores, disposição aumentada e libido elevada.
Entretanto, a publicidade raramente menciona os riscos associados ao uso sem indicação médica. Estudos apontam danos ao coração, ao fígado e ao sistema cardiovascular, sobretudo quando o hormônio é administrado em doses acima do fisiológico. Esse histórico de exagero e desinformação motivou a criação da diretriz.
O novo consenso brasileiro
O consenso foi assinado pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), pela Associação Brasileira de Estudos em Medicina e Saúde Sexual (ABEMSS) e pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU). O objetivo principal é orientar profissionais de saúde sobre quem realmente deve receber reposição de testosterona, evitando o uso estético que já é proibido pelo Conselho Federal de Medicina.
Segundo o endocrinologista Alexandre Hohl, presidente da ABEMSS, “os homens com deficiência hormonal precisam ser reconhecidos, mas isso não justifica a automedicação”. O documento destaca que apenas 5% dos homens entre 40 e 80 anos apresentam hipogonadismo clínico que justifica tratamento.
Critérios de diagnóstico e exames
Para confirmar o diagnóstico, o consenso recomenda a avaliação de sintomas associados ao déficit hormonal, como:
- Queda de desejo sexual;
- Dificuldade de ereção;
- Fadiga persistente;
- Perda de massa muscular;
- Alterações no humor.
Além dos sintomas, é imprescindível a realização de exames de sangue entre 7 h e 10 h da manhã, horário em que os níveis de testosterona atingem o pico fisiológico. O teste deve ser repetido ao menos duas vezes para confirmar a deficiência.
O consenso também esclarece que o envelhecimento, por si só, não é indicação para reposição. A queda média de 1,6% ao ano nos níveis hormonais não costuma gerar prejuízos significativos à qualidade de vida, diferentemente da menopausa feminina, que apresenta queda abrupta e sintomática.
Implicações para pacientes e profissionais
Para os homens diagnosticados com hipogonadismo, a reposição pode melhorar qualidade de vida, mas não é automática. Em casos de obesidade, por exemplo, entre 30% e 50% dos pacientes apresentam níveis baixos de testosterona que podem se normalizar com perda de peso. Nesses casos, a terapia hormonal deve ser considerada somente após intervenções não farmacológicas.
As mulheres também são mencionadas no documento, mas a única indicação aceita atualmente é a redução consistente de libido após a menopausa. Qualquer outro uso em mulheres carece de evidência robusta e pode trazer efeitos adversos.
Para os profissionais de saúde, a diretriz traz recomendações práticas: avaliar histórico clínico, solicitar exames no horário indicado, descartar causas reversíveis (como obesidade ou uso de medicações) e, somente então, considerar a reposição. O acompanhamento deve incluir monitoramento de hemoglobina, perfil lipídico, função hepática e avaliação cardiovascular a cada seis a doze meses.
O documento ainda lista contraindicações absolutas, como câncer de próstata ativo, doença hepática grave e história de eventos trombóticos. Em pacientes com fatores de risco moderados, a decisão deve ser compartilhada, ponderando benefícios e potenciais efeitos colaterais.
Com a publicação da diretriz, espera‑se que tanto médicos quanto pacientes adotem uma postura mais crítica frente ao uso da testosterona. A mensagem central é clara: o hormônio pode ser benéfico quando indicado, mas o abuso pode ser fatal.








