No último mês, durante o 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) divulgou a terceira edição da Diretriz de Cardiogeriatria, um documento essencial para orientar a prática clínica em pacientes idosos com condições cardiovasculares. A publicação, que ultrapassa 170 páginas, reforça que a idade cronológica não deve ser o único critério para decisões terapêuticas, destacando a importância da avaliação funcional e das comorbidades.
Principais inovações da nova diretriz
A versão 2024 apresenta mudanças significativas em relação às edições anteriores, trazendo capítulos inéditos e recomendações baseadas em evidências recentes. Entre as novidades, destaca‑se a inclusão de um capítulo exclusivo sobre síncope em idosos, um tema ainda pouco abordado em guias internacionais.
Além disso, a diretriz amplia as recomendações referentes à fragilidade, definindo critérios claros para sua identificação e manejo clínico. O documento também enfatiza a necessidade de integrar avaliações multidisciplinares, promovendo um cuidado mais holístico.
Outro ponto de destaque é a atualização das recomendações de tratamento farmacológico, considerando as alterações fisiológicas típicas da terceira idade, como a diminuição da função renal e hepática.
Abordagem da síncope em pacientes geriátricos
A síncope, ou desmaio, é reconhecida como uma das principais causas de quedas em idosos, podendo mascarar doenças cardíacas graves, como arritmias ou disfunções valvares. A nova diretriz propõe um algoritmo diagnóstico específico para a população geriátrica.
O primeiro passo consiste na avaliação rápida dos sinais vitais e na coleta de um histórico detalhado, incluindo fatores precipitantes e medicações em uso. Em seguida, recomenda‑se a realização de eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações e, quando indicado, monitoramento ambulatorial.
- História clínica: investigar episódios prévios, posição no momento da queda e presença de prodromos.
- Exames complementares: ECG, ecocardiograma, teste de inclinação e exames laboratoriais específicos.
- Intervenções imediatas: correção de hipotensão ortostática, ajuste de medicações que podem provocar bradicardia.
Para casos de síncope inexplicada após avaliação inicial, a diretriz recomenda encaminhamento a centros especializados em eletrofisiologia ou em avaliação de tontura em idosos.
Fragilidade e sarcopenia: avaliação e intervenções
A fragilidade é descrita como um estado de vulnerabilidade aumentada, resultante da perda da reserva fisiológica e da capacidade de resposta a estressores. Na prática clínica, a identificação precoce desse quadro pode prevenir eventos adversos graves.
Um dos primeiros indicadores da fragilidade é a sarcopenia, caracterizada pela redução da massa e força muscular. A diretriz sugere o uso de instrumentos validados, como o teste de caminhada de 4 metros e a avaliação da força de preensão manual.
- Aplicar o Questionário de Fragilidade de Fried para classificar pacientes em não frágeis, pré‑frágeis ou frágeis.
- Realizar avaliação da composição corporal por bioimpedância ou DEXA quando disponível.
- Implementar programas de exercício físico focados em resistência e treinamento de força, supervisionados por fisioterapeutas.
Além do exercício, a nutrição adequada desempenha papel fundamental. A diretriz recomenda suplementação de proteína de alta qualidade e, quando necessário, aporte de vitamina D para melhorar a função muscular.
Intervenções multidisciplinares, envolvendo médicos, fisioterapeutas, nutricionistas e assistentes sociais, são essenciais para reverter ou estabilizar a fragilidade.
Importância da Avaliação Geriátrica Ampla (AGA)
A Avaliação Geriátrica Ampla (AGA) é apontada como o padrão‑ouro para o cuidado integral de idosos. Trata‑se de um processo interdisciplinar que investiga aspectos clínicos, funcionais, cognitivos, nutricionais, psicológicos e sociais.
Segundo a nova diretriz, a AGA deve ser oferecida a todos os pacientes com 65 anos ou mais que apresentem doença cardiovascular, independentemente do grau de gravidade da condição.
O procedimento começa com a coleta de dados sociodemográficos, seguida por avaliações específicas, como o Mini‑Exame do Estado Mental (MEEM) para função cognitiva e o Índice de Atividade de Vida Diária (IADL) para independência funcional.
- Clínico: revisão de medicações, controle de hipertensão, diabetes e dislipidemia.
- Funcional: teste de caminhada de 6 minutos, avaliação de equilíbrio.
- Cognitivo: rastreamento de demência ou comprometimento leve.
- Nutricional: avaliação do estado nutricional usando o Mini‑Nutritional Assessment (MNA).
- Psicológico e social: identificação de depressão, apoio familiar e condições de moradia.
Os resultados da AGA orientam a elaboração de um plano de cuidado individualizado, que inclui ajustes de medicação, intervenções de reabilitação, suporte psicossocial e encaminhamentos para serviços especializados.
Implementar a AGA no cotidiano dos serviços de cardiologia pode reduzir internações hospitalares, melhorar a qualidade de vida e otimizar o uso de recursos de saúde.
Em resumo, a Diretriz de Cardiogeriatria 2024 representa um avanço significativo na medicina cardiovascular para a população idosa, ao combinar evidências científicas recentes com uma abordagem centrada no paciente. Ao priorizar avaliações abrangentes, considerar a fragilidade como fator modificável e oferecer diretrizes claras para o manejo da síncope, a SBC reforça seu compromisso com a excelência no cuidado cardíaco de nossos idosos.








