Em entrevista concedida em agosto de 2024, o vice‑presidente sênior de P&D em oncologia da GSK, Hesham Abdullah, destacou que o diagnóstico precoce é a ferramenta mais poderosa para reduzir a mortalidade por câncer. O especialista, que já liderou o registro de 13 medicamentos inovadores, trouxe sua experiência pessoal e profissional para reforçar a mensagem.
A trajetória de Hesham Abdullah e sua visão sobre o câncer
Abdullah acumula mais de duas décadas de atuação em pesquisa oncológica, tendo participado do desenvolvimento de imunoterapias e anticorpos conjugados. Sua carreira foi marcada por sucessos científicos, mas também por momentos íntimos que mudaram sua perspectiva.
Em 2005, seu pai recebeu diagnóstico de câncer colorretal avançado, o que o obrigou a alternar entre o papel de médico e o de cuidador. Essa vivência o aproximou dos efeitos colaterais dos tratamentos e da importância de um suporte familiar sólido.
O pai faleceu após três anos e meio de luta, enquanto a irmã de Abdullah conseguiu superar a doença graças a um tratamento adequado. Essas experiências pessoais passaram a influenciar as decisões estratégicas que ele toma na indústria farmacêutica.
Inovações em tratamento versus importância do diagnóstico precoce
Nos últimos quinze anos, a medicina oncológica avançou rumo à personalização, com drogas que atacam especificamente as células tumorais e preservam tecidos saudáveis. Essa evolução transformou o câncer de uma sentença fatal para uma doença crônica controlável em muitos casos.
No entanto, Abdullah alerta que a tecnologia por si só não basta se o tumor for detectado em estágio avançado. Os dados mostram que pacientes diagnosticados nos estágios 1 ou 2 têm taxas de cura muito superiores às daqueles que iniciam o tratamento em estágios 3 ou 4.
Para ilustrar a diferença, ele apresenta a seguinte comparação:
- Sobrevida de 5 anos em estágio 1: acima de 80%;
- Sobrevida de 5 anos em estágio 4: menos de 15%.
Esses números reforçam a necessidade de investir em programas de rastreamento populacional e em tecnologias de diagnóstico de alta sensibilidade.
Desafios de acesso e o papel da biofarmacêutica
Embora as terapias avançadas estejam disponíveis, seu custo ainda representa um grande obstáculo para pacientes em países de baixa e média renda. Abdullah reconhece que a redução de preços não acompanha o ritmo acelerado de inovação.
A GSK estabeleceu a meta de impactar 2,5 bilhões de pessoas até 2031, focando em soluções escaláveis, como comprimidos orais e infusões ambulatoriais que não exigem internações prolongadas. Essa estratégia visa democratizar o acesso a tratamentos de última geração.
Ele também lista os principais gargalos que precisam ser superados:
- Alto custo de produção de anticorpos monoclonais;
- Infraestrutura limitada em centros de saúde públicos;
- Desigualdade no acesso a exames de imagem de alta resolução.
Superar esses desafios requer parcerias entre governos, organizações não‑governamentais e a indústria farmacêutica.
Visita ao Brasil e perspectivas futuras
Abdullah esteve duas vezes no Brasil, a última em agosto de 2024, onde visitou hospitais como o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) e o Instituto Nacional de Câncer (INCA). Ele ficou impressionado com a capacidade de atendimento do setor público, que trata cerca de 75% da população oncológica.
Durante a visita, o especialista destacou a necessidade de ampliar programas de rastreamento de mama, colo‑útero e próstata, especialmente em regiões com menor acesso a exames preventivos. Ele acredita que a combinação de infraestrutura robusta e políticas de diagnóstico precoce pode mudar o panorama nacional.
Abdullah conclui que o futuro da oncologia deve focar menos em curar tumores avançados e mais em impedir que eles se desenvolvam. Seu apelo é claro: “Investir em diagnóstico precoce salva mais vidas do que qualquer terapia complexa”.








