Na manhã de 23 de setembro de 2023, Maricarmen, uma mulher de 87 anos, foi forçada a deixar o apartamento que ocupava há setenta anos no bairro do Retiro, em Madri. O despejo ocorreu após a empresa proprietária do imóvel exigir um aumento de aluguel que a idosa não conseguiu pagar. O caso trouxe à tona a profunda crise de moradia que afeta milhares de residentes na Espanha.
A crise de moradia em Madri
Madri tem registrado um aumento constante dos preços de aluguel nas últimas duas décadas, especialmente em bairros centrais como o Retiro, Salamanca e Chamberí. O crescimento dos aluguéis tem superado a evolução dos salários, tornando difícil a permanência de idosos e famílias de baixa renda nos seus lares.
Segundo dados do Instituto Nacional de Estatística (INE), o valor médio dos aluguéis residenciais subiu cerca de 45% entre 2015 e 2023. Esse cenário cria um ambiente de vulnerabilidade para quem depende de pensões fixas, como é o caso de Maricarmen, cuja aposentadoria mensal é de 1.350 euros.
Além do aumento dos preços, a escassez de oferta habitacional acessível tem sido alimentada por investimentos estrangeiros e pela compra de imóveis para fins especulativos. Empresas como a Renta Corporación e a Urbagestión, citadas no caso, compram edifícios antigos, reformam‑os e elevam os aluguéis para níveis incompatíveis com a renda dos antigos inquilinos.
- Aluguel médio acima de 2.000 euros em áreas centrais.
- Renda média dos pensionistas abaixo de 1.500 euros.
- Despejos forçados em crescimento de 12% ao ano.
Esses números demonstram que a crise habitacional não é apenas um problema de mercado, mas também uma questão de justiça social, que afeta diretamente a dignidade e a qualidade de vida dos mais vulneráveis.
Contratos de locação antiga e seus impactos
Maricarmen vivia sob um contrato de locação antiga, firmado em 1956, quando seu pai assinou o aluguel de 500 euros mensais. Esse tipo de contrato, criado durante a ditadura franquista, preservava valores de aluguel historicamente baixos e garantia a transmissão do contrato para os herdeiros.
Com o tempo, a legislação espanhola passou por reformas que permitiram a atualização dos valores e limitaram a sucessão de contratos após a segunda geração de inquilinos. O Supremo Tribunal espanhol decidiu que, no caso de Maricarmen, o contrato não poderia ser prolongado indefinidamente, pois já havia passado por duas sucessões.
Em 2018, o edifício foi vendido à Renta Corporación, que ofereceu à idosa a compra do apartamento por 247 mil euros – valor que ela não pôde arcar. Quando a proposta foi recusada, a empresa vendeu o imóvel à Urbagestión em 2020, que inicialmente cobrou 2.650 euros de aluguel, reduzindo depois para 1.650 euros.
Mesmo com a redução, o aluguel revisado ainda superava em 300 euros a pensão mensal de Maricarmen, impossibilitando o pagamento regular. A advogada da idosa afirma que ela nunca deixou de pagar o valor acordado, mas a empresa alegou que o contrato antigo havia expirado e exigiu o novo preço.
Essas mudanças legislativas criam um cenário de insegurança jurídica para inquilinos de longa data, que podem perder o direito à moradia mesmo após décadas de ocupação pacífica.
Repercussões e mobilização social
O despejo de Maricarmen mobilizou dezenas de ativistas que se posicionaram em frente ao prédio, tentando impedir a execução da ordem judicial. Os manifestantes usaram cartazes, microfones e redes sociais para denunciar a situação e chamar a atenção para a necessidade de reformas mais profundas na política habitacional espanhola.
Organizações como a Plataforma de Inquilinos de Madri (PIM) e a Associação de Direitos Humanos de Madrid emitiram comunicados pedindo ao governo nacional que implemente medidas de controle de aluguel e proteja contratos antigos de forma mais eficaz.
Além das manifestações de rua, o caso ganhou destaque em veículos de imprensa internacionais, como a BBC e o The Guardian, ampliando o debate sobre a crise de moradia na Europa. Especialistas apontam que a falta de políticas públicas robustas pode levar a um aumento dos desalojamentos forçados, especialmente entre a população idosa.
- Pressão por leis de controle de aluguel mais rígidas.
- Exigência de proteção legal para contratos de locação antiga.
- Criação de fundos de apoio a idosos em risco de despejo.
O futuro de Maricarmen ainda depende de decisões judiciais e de possíveis acordos com a empresa proprietária. Enquanto isso, sua história serve como um alerta para que autoridades, proprietários e sociedade civil trabalhem juntos na busca de soluções que garantam o direito à moradia digna para todos.








