O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, nesta sexta‑feira (18), um diagnóstico que revela que pessoas com deficiência (PCDs) recebem quase 30% menos que quem não tem deficiência e ainda enfrentam maior dificuldade de acesso ao mercado de trabalho em todo o Brasil.
Desigualdade de renda entre PCDs e não‑PCDs
Os números mostram que o rendimento médio mensal dos PCDs é de R$ 2.053, enquanto a média dos trabalhadores sem deficiência chega a R$ 2.890. Essa diferença de R$ 837 representa quase um terço a menos para quem tem alguma limitação.
Em todos os setores analisados, a disparidade persiste, mas os maiores gaps são observados na indústria (‑29,3%) e nos serviços de informação, atividades financeiras e outras atividades profissionais (‑31,3%).
Por exemplo, na manufatura, o salário médio de um trabalhador com deficiência é de R$ 1.859, comparado a R$ 2.630 dos colegas sem deficiência. Já nos serviços de informação e financeiros, a média dos PCDs é de R$ 2.754, contra R$ 4.008 dos demais.
Barreiras de ocupação e concentração setorial
O índice de ocupação – proporção de pessoas em idade de trabalhar que efetivamente têm um emprego – também evidencia a desigualdade. Enquanto 55,8% dos não‑PCDs estão ocupados, apenas 29% dos PCDs têm um cargo, o que corresponde a um déficit de 26,8 pontos percentuais.
Luanda Chaves Botelho, coordenadora da Copis no IBGE, aponta que as barreiras vão além da qualificação e incluem preconceitos, falta de acessibilidade e políticas insuficientes.
Os PCDs concentram‑se em ocupações de menor remuneração, como:
- Serviços domésticos
- Agropecuária
- Alojamento e alimentação
Essas atividades, em geral, apresentam salários abaixo da média nacional, ampliando ainda mais a diferença de renda.
Pobreza e perfil familiar
Quando se analisa a composição da renda familiar, a parcela proveniente do trabalho tem peso menor nas famílias que contam com PCDs. Em compensação, outras fontes – aposentadorias, pensões e benefícios sociais – são mais frequentes, refletindo o perfil mais envelhecido desse grupo.
O estudo também destaca que a taxa de pobreza entre crianças com deficiência (2 a 14 anos) atinge 60,9%, muito acima da média nacional. A linha de pobreza é definida como renda per capita inferior a R$ 770 mensais.
Em todas as faixas etárias, a população com deficiência apresenta índices de pobreza superiores aos de quem não tem deficiência. Entre os idosos (60+), a diferença diminui, pois ambos os grupos recebem mais benefícios previdenciários.
A maioria das crianças e adolescentes com deficiência que vivem abaixo da linha de pobreza reside com a mãe ou madrasta e o pai ou padrasto (53,5%) ou apenas com a mãe ou madrasta (35,1%).
Impacto da escolaridade e recomendações
Um dos fatores críticos apontados pelo IBGE é o nível de escolarização. A taxa de analfabetismo entre jovens de 15 a 29 anos com deficiência foi de 12,2% em 2022, quase doze vezes maior que a dos jovens sem deficiência.
Essa lacuna educacional reduz as oportunidades de acesso a cargos qualificados e perpetua a concentração em empregos de baixa remuneração.
Especialistas recomendam políticas integradas que incluam:
- Investimento em educação inclusiva desde a primeira infância
- Programas de capacitação profissional adaptados
- Incentivos fiscais para empresas que contratem PCDs em cargos de média e alta remuneração
- Melhoria da acessibilidade nos locais de trabalho e transporte público
Somente com ações coordenadas entre governo, setor privado e sociedade civil será possível reduzir a desigualdade salarial e garantir que pessoas com deficiência tenham acesso pleno ao mercado de trabalho.








