O último relatório do PISA revelou que o Brasil obteve 377 pontos em matemática, ocupando a 71ª posição entre os países avaliados, conforme divulgado em 25 de setembro de 2026 na edição nº 3014 da revista VEJA. O resultado evidencia um cenário de vulnerabilidade para a formação de profissionais capazes de atender às demandas de uma economia cada vez mais tecnológica.
Contexto histórico do PISA e a relevância dos números
O Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) foi criado pela OCDE em 1997 para medir competências em leitura, matemática e ciências entre estudantes de 15 anos. Desde então, os resultados tornaram‑se referência para políticas públicas educacionais ao redor do mundo.
No Brasil, a participação no PISA começou em 2000, mas apenas nas últimas duas edições o país tem conseguido comparar seu desempenho com o de nações desenvolvidas. O dado de 377 pontos representa uma queda em relação aos 401 pontos registrados em 2018, reforçando a necessidade de intervenções estruturais.
Comparação internacional: quem lidera e por quê
Os quatro primeiros colocados do ranking de matemática são territórios com forte presença chinesa: China (províncias de Pequim, Xangai, Jiangsu e Zhejiang) com 612 pontos, Singapura com 563, Macau com 549 e Taiwan com 546. Esses resultados são fruto de políticas educacionais de longo prazo, valorização cultural da aprendizagem e sistemas de meritocracia que remontam a séculos.
- China: tradição de exames imperiais que incentivam o estudo intensivo.
- Singapura: investimento contínuo em formação docente e currículo focado em resolução de problemas.
- Macau e Taiwan: sistemas de ensino que combinam rigor acadêmico e apoio familiar.
Apesar do destaque da Ásia, os Estados Unidos ainda lideram em número de matemáticos de alto nível, com 1 386 pesquisadores reconhecidos internacionalmente, superando França (232), Alemanha (224), Reino Unido (215) e China (162).
Desafios internos do ensino de matemática no Brasil
O Brasil apresenta tradição em áreas científicas, ocupando a 19ª posição em produção de matemáticos entre 30 países analisados. Contudo, a qualidade do ensino básico ainda é insuficiente para transformar esse potencial em resultados concretos.
Entre os principais obstáculos, destacam‑se:
- Formação docente deficiente: muitos professores não recebem preparação adequada em conteúdos avançados.
- Currículo rígido: foco excessivo em memorização e repetição, limitando o desenvolvimento do pensamento crítico.
- Desigualdade regional: escolas em áreas rurais e periféricas carecem de recursos, laboratórios e materiais didáticos.
- Falta de tempo para aprofundamento: como apontou Évariste Galois, a pressão por cobrir todo o conteúdo deixa pouco espaço para reflexão.
Essas questões geram um ciclo vicioso onde estudantes desmotivados entram no ensino superior com lacunas, comprometendo a inovação e a competitividade do país.
Caminhos para a melhoria: propostas e boas práticas
Para reverter esse quadro, especialistas sugerem um conjunto de medidas que combinam reformas estruturais e ações de curto prazo.
1. Investimento na formação continuada de professores: programas de mestrado e especialização em didática da matemática devem ser ampliados, com incentivos financeiros e reconhecimento profissional.
2. Revisão curricular: inserir projetos interdisciplinares, uso de tecnologia e resolução de problemas reais, permitindo que os alunos apliquem conceitos em contextos cotidianos.
3. Redução da desigualdade de recursos: criar fundos específicos para escolas em regiões vulneráveis, garantindo acesso a laboratórios, softwares educacionais e bibliotecas.
4. Parcerias público‑privadas: empresas de tecnologia podem colaborar com o Ministério da Educação para desenvolver plataformas de aprendizagem adaptativa que personalizem o ritmo de estudo.
5. Avaliações formativas: substituir exames de alta pressão por avaliações que forneçam feedback contínuo, estimulando o aprendizado ao longo do ano.
Experiências bem‑sucedidas já foram observadas em estados como São Paulo, onde a implementação de escolas de tempo integral resultou em aumento de 12 pontos no PISA em apenas três ciclos. Projetos piloto em municípios do Nordeste, que combinaram tutoria online e oficinas de resolução de problemas, também mostraram ganhos significativos.
Ao alinhar políticas públicas com a cultura de valorização da educação, o Brasil pode transformar o “tempo que falta” em oportunidade de inovação pedagógica, preparando jovens para os desafios de uma economia digital.








