Os Estados Unidos fecharam o exercício fiscal de 2026 com um déficit recorde de US$ 1,99 trilhão, o maior desde o auge da pandemia de covid‑19. O dado foi divulgado pelo Departamento do Tesouro na sexta‑feira, 16 de outubro, e reflete o balanço de receitas e despesas ao final do ano fiscal, que terminou em 30 de setembro. Esse rombo coloca o país em seu 25º ano consecutivo de contas deficitárias.
Causas do aumento do déficit
O crescimento de 12% em relação ao déficit de 2025 foi impulsionado por uma combinação de fatores estruturais e pontuais. Primeiro, o aumento das despesas com a dívida pública elevou os juros pagos ao governo, que superaram a marca de US$ 1 trilhão no ano. Segundo, as tarifas de importação geraram receitas recordes, mas também exigiram reembolsos significativos após a decisão da Suprema Corte que considerou ilegal o “tarifaço” de Trump.
Além disso, o governo de Donald Trump manteve gastos elevados em áreas estratégicas, contrariando promessas de redução da máquina pública. A política tributária também influenciou o resultado: embora a arrecadação de imposto de renda de pessoas físicas tenha subido 7%, a tributação sobre empresas caiu cerca de US$ 70 bilhões devido a cortes de taxas aprovados no chamado Big Beautiful Bill.
Distribuição dos gastos governamentais
Os principais componentes das despesas públicas podem ser agrupados em três categorias que, juntas, respondem por quase todo o déficit. Cada uma delas tem características distintas que merecem atenção detalhada.
- Segurança Social (Social Security): Representou a maior fatia, totalizando quase US$ 1,7 trilhão, um leve aumento em relação aos US$ 1,6 trilhão de 2025.
- Medicare: O programa de saúde pública custou quase US$ 1,1 trilhão, superando o gasto de pouco menos de US$ 1 trilhão no exercício anterior.
- Juros líquidos da dívida: O pagamento de juros, já descontados os recebidos, ultrapassou US$ 1 trilhão, comparado a US$ 970 bilhões no ano fiscal anterior.
Esses números revelam a pressão crescente sobre o orçamento federal, especialmente em áreas de assistência social e saúde, que são menos suscetíveis a cortes rápidos sem gerar impactos sociais significativos.
Desafios e perspectivas para o futuro
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, destacou que o “crescimento global é o caminho” para enfrentar o rombo, indicando que a solução passa por estimular a economia e ampliar a base tributária. Entretanto, a dívida nacional já ultrapassou US$ 40 trilhões, mais que o dobro do valor registrado há dez anos, o que eleva o risco de pressões inflacionárias e de aumento dos custos de financiamento.
Analistas apontam que, se a tendência de déficit persistir, o governo poderá precisar adotar medidas como revisão de benefícios, aumento de impostos ou renegociação de termos da dívida. A perspectiva de um superávit, que não ocorre desde 2001, ainda parece distante, a menos que haja reformas estruturais profundas.
Enquanto isso, a arrecadação de tarifas permanece volátil. O recorde de arrecadação bruta de tarifas alfandegárias foi compensado pelos reembolsos obrigatórios, gerando incerteza sobre a efetividade desse instrumento como fonte de receita estável.
Em síntese, o déficit de US$ 1,99 trilhão evidencia a complexa interação entre políticas fiscais, gastos sociais e custos de financiamento. O desafio para os próximos anos será equilibrar a necessidade de apoio econômico com a sustentabilidade fiscal, evitando que o rombo se torne um fardo insustentável para as gerações futuras.








