Nos Estados Unidos, a discussão sobre a pena capital voltou ao centro das atenções em outubro de 2026, após declarações do governo federal sobre a possibilidade de transmitir ao vivo a execução de Nidal Hasan. O debate envolve políticos, juristas e a sociedade civil, que se dividem entre a defesa da medida como forma de dissuasão e a condenação por questões éticas e de eficácia.
Contexto político e a retomada da pena capital
Com a posse de Donald Trump para seu segundo mandato, o presidente adotou uma postura agressiva contra o que chamou de “onda de crimes bárbaros” que, segundo ele, ameaçava a segurança das cidades americanas. Essa retórica alimentou a pressão para que os estados reforçassem leis mais rigorosas, inclusive a retomada de execuções públicas.
Em janeiro de 2026, Pete Hegseth, secretário de Defesa, anunciou que o militar Nidal Hasan seria executado por pelotão de fuzilamento no dia 3 de dezembro, com transmissão ao vivo pela internet. Embora Trump tenha recuado na quinta‑feira, 15 de novembro, afirmando que “pessoas de bem podem não querer ver a morte”, a simples menção ao ato já provocou ondas de protestos e debates nas redes sociais.
A proposta de transmissão ao vivo remete a práticas que desaparecem nos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O último fuzilamento militar ocorreu em 1945, enquanto a última execução pública, em praça pública, foi realizada em 1937. O ressurgimento da ideia revela um retrocesso simbólico que confronta valores contemporâneos de dignidade humana.
Casos que reacenderam o debate
Dois episódios recentes ganharam destaque na mídia e impulsionaram a discussão sobre a pena de morte. O primeiro foi o caso de Nidal Hasan, psiquiatra e major do Corpo Médico do Exército, que em 2009 abriu fogo na base de Fort Hood, Texas, matando treze soldados e ferindo outros trinta e dois. No julgamento, Hasan declarou que desejava morrer como mártir, o que gerou ainda mais polêmica sobre sua sentença.
O segundo caso envolveu Christa Pike, de cinquenta anos, que sobreviveu a duas doses consecutivas de injeção letal em 2025, no Tennessee. Condenada por tortura e assassinato de uma colega de escola aos dezoito anos, Pike passou dias na UTI antes de recuperar a consciência. O episódio expôs falhas no protocolo de execução e reavivou o debate sobre a eficácia e a moralidade da pena capital.
- Execução de Nidal Hasan: prevista para 3 de dezembro de 2026, com possibilidade de transmissão ao vivo.
- Falha na injeção letal de Christa Pike: duas doses administradas, sobrevivência e retorno à prisão.
- Último fuzilamento militar nos EUA: 1945.
- Última execução pública: 1937.
Esses casos foram amplamente comentados por políticos de ambos os partidos. O vice‑presidente JD Vance, católico, declarou que não assistiria a uma transmissão de execução. Trump, que tem a autoridade final para autorizar a transmissão, inicialmente aprovou a ideia e depois afirmou que ainda refletiria sobre o assunto. A historiadora Carolyn Strange ressaltou a falta de evidências de que execuções públicas reduzem a violência.
Opinião pública e panorama internacional
Apesar das controvérsias, a maioria dos americanos ainda apoia a pena de morte. Pesquisas recentes apontam que 52% dos cidadãos são favoráveis à aplicação da pena capital para crimes em geral, e esse número sobe para 66% quando se trata de homicídios. Essa aprovação reflete, em parte, a percepção de que a pena de morte funciona como um mecanismo de justiça retributiva.
No âmbito estadual, a pena capital está em vigor em 27 estados. Em 2025, 47 pessoas foram executadas nos EUA, o maior número desde 2009 e quase o dobro das 25 execuções registradas em 2024. A Flórida liderou o ranking com dezenove execuções, consolidando-se como a principal defensora da medida no país.
Em escala global, a Anistia Internacional registrou 2.707 execuções em dezessete países no último ano, enquanto 113 nações aboliram a pena capital. O Irã, que mantém relações tensas com os EUA, destacou-se como um dos maiores executores, recentemente condenando a morte de uma mulher de 23 anos por “blasfêmia”.
- Percentual de apoio à pena de morte nos EUA: 52% (crimes gerais), 66% (homicídios).
- Estados com pena de morte: 27.
- Execuções nos EUA em 2025: 47.
- Execuções na Flórida em 2025: 19.
- Execuções globais em 2025: 2.707 em 17 países.
Organizações de direitos humanos continuam a pressionar por reformas, argumentando que a pena de morte viola princípios fundamentais como o direito à vida e à proteção contra tratamentos cruéis. Elas também apontam para o risco de erros judiciais, a ineficácia como deterrente e o alto custo financeiro comparado à prisão perpétua.
Enquanto isso, legisladores estaduais avaliam projetos de lei que podem ampliar ou restringir o uso da pena capital. Em alguns estados, como a Virgínia e o Colorado, há movimentos para abolir completamente a prática, enquanto outros, como o Texas, buscam aumentar o número de crimes elegíveis para a pena de morte.
O futuro da pena capital nos EUA permanece incerto. A proposta de transmissão ao vivo de execuções pode ser um ponto de inflexão, provocando novas discussões sobre a transparência do Estado, o sensacionalismo e o respeito à dignidade humana. O que está em jogo não é apenas a vida de indivíduos condenados, mas também a imagem de um país que se posiciona como defensor dos direitos humanos no cenário internacional.








