Na segunda‑feira, 7 de setembro de 2024, a charmosa vila de Saint‑Paul‑de‑Vence, no sul da França, recebeu a Cúpula Lumière, um encontro de peso que reuniu autoridades, executivos de grandes estúdios e criadores de conteúdo de mais de cinquenta e cinco países.
O objetivo foi discutir como a indústria audiovisual pode se adaptar a transformações tecnológicas, à competição das redes sociais e à escassez de recursos financeiros para novas produções.
Desafios da Inteligência Artificial e das Redes Sociais
Um dos principais temas abordados foi o impacto da inteligência artificial (IA) na criação de conteúdo. Representantes da Disney, Netflix, NBCUniversal, Prime Video e da agência CAA participaram de painéis que analisaram como algoritmos podem auxiliar roteiristas, diretores e editores, sem substituir a criatividade humana.
Os especialistas concordaram que a IA deve ser usada como “impulso à criação”, reforçando a necessidade de manter a autoria humana como base das obras audiovisuais. Essa postura foi formalizada na Declaração de Lumière, que estabelece quinze princípios orientadores.
- Preservar a autoria humana como elemento central.
- Utilizar IA apenas como ferramenta de apoio.
- Garantir transparência no uso de algoritmos.
- Proteger dados e privacidade dos usuários.
- Combater a desinformação gerada por deepfakes.
Outro ponto crítico foi a concorrência das redes sociais pela atenção do público. Plataformas como TikTok e Instagram têm se tornado canais de descoberta de conteúdo, exigindo que estúdios e emissoras repensem estratégias de distribuição e marketing.
Os participantes sugeriram a criação de formatos curtos e interativos que possam ser compartilhados nas redes, sem perder a qualidade narrativa que caracteriza filmes e séries de longo prazo.
A Convergência entre TV Aberta e Streaming
O painel “Emissoras e streamings: velhos rivais, novas estratégias” contou com a presença de Paulo Marinho, da Globo, Isabelle Degeorges, da Gaumont Télévision, e Andrew Bennett, da Prime Video. O debate partiu da constatação de que, nos últimos dez anos, TV linear e plataformas de streaming passaram de concorrentes a parceiros estratégicos.
Com a queda de audiência da TV aberta em vários mercados, ambas as partes têm buscado sinergias no desenvolvimento, financiamento e distribuição de séries. O modelo híbrido permite que uma produção nasça em um estúdio, seja financiada parcialmente por uma emissora e, ao final, alcance o público global via streaming.
A Globo exemplifica essa tendência ao integrar seu conteúdo tradicional ao Globoplay, sua plataforma de streaming. Essa estratégia tem ampliado o alcance da programação brasileira, ao mesmo tempo em que abre espaço para coproduções internacionais.
Além da Globo, outras grandes redes europeias e norte‑americanas relataram iniciativas semelhantes, como a BBC iPlayer e a HBO Max, que agora compartilham direitos de transmissão e co‑financiamento com parceiros locais.
Compromissos e Declaração de Lumière
Ao final da cúpula, os participantes assinaram a “Declaração de Lumière”, um documento que reúne quinze princípios voltados para a sustentabilidade da imagem em movimento nas próximas décadas.
Entre os pontos centrais, destaca‑se a defesa da preservação de acervos físicos, que se degradam irreversivelmente com o tempo, e a proposta de uma iniciativa conjunta com a UNESCO para promover a alfabetização visual nas escolas, considerada a nova leitura do século 21.
Outros compromissos incluem o combate à pirataria, a valorização da diversidade de formatos e narrativas, o reforço da coprodução internacional e a promoção do cinema como experiência coletiva.
Os signatários se comprometeram a monitorar o progresso dos princípios adotados, revisando anualmente os resultados e ajustando as metas conforme a evolução tecnológica e de mercado.
O encontro também celebrou a história dos irmãos Lumière, Auguste e Louis, que há 130 anos projetaram o primeiro cinematógrafo público e, há 200 anos, registraram a primeira fotografia. Essa homenagem reforçou a ideia de que a imagem, em todas as suas formas, continua sendo um motor cultural e econômico.
Além das discussões de alto nível, a cúpula ofereceu sessões paralelas para criadores emergentes, produtores independentes e representantes de festivais de cinema, fomentando a troca de ideias entre diferentes gerações da indústria.
Os participantes ressaltaram a importância de apoiar mercados em rápido crescimento, como a Coreia do Sul, Índia e Brasil, onde a demanda por conteúdo original está em alta e novos talentos emergem a cada temporada.
Em resumo, a Cúpula Lumière consolidou um espaço de diálogo global, onde governos, grandes estúdios, plataformas digitais e criadores independentes puderam alinhar estratégias para enfrentar os desafios da próxima década.
Os resultados esperados incluem a criação de políticas públicas que incentivem a produção nacional, a adoção de normas éticas para o uso de IA e a ampliação de acordos de coprodução que beneficiem tanto mercados consolidados quanto emergentes.
Com a assinatura da Declaração, a comunidade audiovisual deu um passo concreto rumo a um futuro onde a criatividade humana permanece no centro, enquanto a tecnologia serve como facilitadora e não substituta.
Os próximos encontros da Cúpula estão previstos para 2026, com a intenção de avaliar o cumprimento dos princípios estabelecidos e ajustar as diretrizes conforme novas inovações surgirem.








