Na manhã desta sexta‑feira, 16 de outubro, o Congresso Nacional promulgou a emenda constitucional que elimina a escala 6×1 e estabelece duas folgas remuneradas semanais, sem redução salarial. A medida representa a primeira alteração da jornada de trabalho desde a Constituição de 1988 e foi assinada pelos presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Luiz Inácio Lula da Silva, respectivamente.
Com a publicação da emenda no Diário Oficial, inicia‑se um período de transição de dois meses, durante o qual a jornada máxima será reduzida gradualmente de 44 para 42 horas, e depois para 40 horas, garantindo aos trabalhadores dois dias de descanso, preferencialmente aos domingos.
Contexto histórico da jornada de trabalho no Brasil
Desde a Constituição de 1988, a jornada de 44 horas semanais permanece como padrão, apesar de debates que na época propunham a redução para 40 horas. Naquela ocasião, a proposta não obteve apoio suficiente e acabou sendo mantida a carga de 44 horas.
A escala 6×1, que obrigava o trabalhador a cumprir seis dias de labor e folgar apenas um, tornou‑se símbolo de jornadas extensas e de precariedade, sobretudo em setores como comércio, saúde e segurança pública.
Ao longo das últimas décadas, sindicatos, movimentos sociais e partidos políticos pressionaram por mudanças que assegurassem mais qualidade de vida e maior equilíbrio entre trabalho e descanso.
Detalhes da emenda constitucional e seu impacto
A nova redação do artigo 7º da Constituição estabelece que a jornada máxima não pode ultrapassar 40 horas semanais, com duas folgas remuneradas. Um dos dias de descanso deve ser, preferencialmente, o domingo, mas a distribuição pode variar conforme a escala adotada pela empresa.
Na prática, a garantia de dois dias de repouso impede a adoção regular da escala 6×1, pois o trabalhador não poderá cumprir seis dias consecutivos sem um segundo dia livre.
Além da redução da carga horária, a emenda não elimina a possibilidade de horas extras, banco de horas ou acordos de compensação, que continuarão válidos dentro dos limites legais.
- Jornada máxima de 40 horas semanais;
- Dois dias de repouso remunerado, preferencialmente aos domingos;
- Transição em duas fases: 44 → 42 → 40 horas;
- Manutenção de mecanismos como horas extras e banco de horas;
- Aplicação em todo o território nacional, sem exceções setoriais.
O Senado aprovou a proposta com 75 votos favoráveis e apenas um voto contrário, demonstrando amplo consenso entre os parlamentares. O único senador que votou contra foi Hamilton Mourão, do Partido Republicanos‑RS.
O presidente Lula descreveu a aprovação como “vitória dos trabalhadores e trabalhadoras”, reforçando o compromisso de sua agenda de direitos sociais.
Próximos passos e desafios para a implementação
Com a promulgação, inicia‑se o prazo de dois meses para que empregadores e sindicatos ajustem contratos, acordos coletivos e sistemas de controle de ponto, de modo a adequar‑se à nova jornada.
Empresas que já adotam a jornada de segunda a sexta-feira precisarão reavaliar a compensação de horas que antes eram distribuídas ao sábado, evitando que a nova regra seja violada.
Os trabalhadores que já usufruem de folgas aos sábados e domingos poderão manter a mesma distribuição, desde que respeitem o limite de duas folgas semanais.
- Publicação da emenda no Diário Oficial;
- Início do período de transição de dois meses;
- Ajustes em acordos coletivos e contratos individuais;
- Fiscalização pelos órgãos de trabalho e Ministério da Economia;
- Possível necessidade de adequação de sistemas de registro de ponto.
Especialistas alertam que a efetividade da mudança dependerá da fiscalização e da capacidade das empresas de reorganizar processos produtivos sem sobrecarregar os funcionários.
Além da jornada, o Congresso também aprovou a emenda que cria aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias, estabelecendo idade mínima de 57 anos para mulheres e 60 para homens, com 25 anos de contribuição.
Essa medida, considerada “pauta‑bomba” pelo governo, projeta um impacto fiscal de cerca de R$ 27 bilhões em dez anos, segundo o Ministério da Previdência.
O conjunto de reformas evidencia uma agenda ampliada de direitos sociais, que busca equilibrar a proteção ao trabalhador com a sustentabilidade fiscal do Estado.
Observadores políticos apontam que a aprovação da emenda ocorreu a poucos dias do segundo turno da eleição presidencial, reforçando a estratégia de Lula de consolidar conquistas trabalhistas como parte central de sua campanha de reeleição.
Para os trabalhadores, a mudança traz a perspectiva de mais tempo livre para descanso, lazer e cuidados familiares, contribuindo para a melhoria da saúde mental e física.
Para o setor produtivo, o desafio será adaptar processos, repensar escalas de plantão e garantir que a produtividade não seja comprometida, ao mesmo tempo em que se respeitam os novos limites legais.
Em suma, a eliminação da escala 6×1 marca um marco histórico nas relações de trabalho no Brasil, sinalizando uma nova era de maior proteção ao trabalhador e de responsabilidade compartilhada entre empregadores, sindicatos e poder público.








