Dar R$ 10 para que uma criança faça compras no supermercado pode ser mais do que um simples gesto de autonomia. Em 2024, pais de diferentes regiões do Brasil começaram a usar a mesada como ferramenta de ensino. Essa prática tem gerado discussões nas redes sociais e despertado o interesse de educadores e especialistas em finanças familiares.
Por que a mesada se tornou um ponto de partida
Para o bancário Silas Gabriel, entregar dinheiro ao filho de 5 anos durante as idas ao mercado abre espaço para que a criança observe preços, compare produtos e aprenda a dizer não quando algo está fora do orçamento. Cada visita ao supermercado se transforma em uma pequena aula prática de escolha e sacrifício.
O método de Silas inclui três cofrinhos: um para gastar, outro para guardar para o futuro e um terceiro para doar. Essa divisão simples ajuda a criança a visualizar diferentes destinos para o dinheiro e a entender que nem todo recurso deve ser consumido imediatamente.
Estratégias lúdicas de famílias empreendedoras
A jornalista e empreendedora Taiana Costa adotou um sistema de recompensas e penalidades para seus filhos, Lucas (10) e seu irmão de 7 anos. Quando Lucas tinha 9 anos, a família começou a registrar ganhos extras provenientes de tarefas domésticas e descontos concedidos por comportamentos positivos.
No final de cada mês, o saldo de cada cofrinho é calculado, permitindo que os meninos estabeleçam metas, como comprar um celular ou um console de videogame. O planejamento de metas ensina que desejos maiores exigem disciplina e que gastar tudo de uma vez pode atrasar outros objetivos.
Taiana ainda utiliza quadros de “responsabilidades financeiras” para que as crianças visualizem suas metas e o progresso alcançado, transformando números em imagens motivadoras.
Desafios atuais: tecnologia e consumo digital
Segundo pesquisa da Serasa e Opinion Box, 32% dos pais relataram que seus filhos já fizeram compras não autorizadas em aplicativos ou jogos, sendo que 60% desses gastos foram inferiores a R$ 100. Esse dado evidencia a necessidade de ensinar limites financeiros antes mesmo que a criança tenha acesso a dispositivos digitais.
O Instituto Locomotiva aponta que 83% dos brasileiros acreditam que as crianças preferem telas a brincar na rua, enquanto 82% são contra o uso de smartphones e tablets por crianças de até 3 anos. O ambiente digital, portanto, traz novos riscos, como compras impulsivas e exposição a fraudes.
Para enfrentar esses desafios, a especialista Arethuza Zero recomenda iniciar a conversa sobre dinheiro antes mesmo do nascimento, ao planejar o enxoval e o quarto do bebê. Na prática, o momento ideal chega quando a criança começa a dizer “quero” ou “compra”.
Orientações práticas para pais e responsáveis
- Comece pequeno: ofereça uma quantia simbólica que a criança possa administrar sem risco de prejuízos.
- Use cofrinhos coloridos: diferencie visualmente os propósitos (gastos, poupança, doação) para facilitar a compreensão.
- Estabeleça metas claras: ajude a criança a definir objetivos de curto, médio e longo prazo, como comprar um brinquedo ou economizar para um passeio.
- Transforme tarefas em recompensas: associe atividades domésticas ou escolares a ganhos financeiros, reforçando a relação entre esforço e resultado.
- Monitore o uso de dispositivos: configure senhas e limites de gasto em aplicativos, e converse sobre a importância de pedir autorização antes de comprar.
Além dessas ações, é fundamental que os pais sirvam de exemplo. Quando os adultos demonstram planejamento, evitam dívidas desnecessárias e explicam, de forma simples, conceitos como juros e investimentos, as crianças internalizam esses hábitos como normas de vida.
Outra dica valiosa é envolver a família em discussões sobre orçamento doméstico. Ao incluir a criança na escolha de produtos durante as compras, ela aprende a comparar preços, avaliar qualidade e perceber que nem sempre o item mais caro é o melhor.
Por fim, lembre‑se de celebrar pequenas conquistas. Quando a criança atinge a meta de poupança ou doa parte do dinheiro, reconheça o esforço com elogios ou recompensas simbólicas, reforçando o comportamento positivo.








