O agravamento das secas e a intensificação do fenômeno El Niño têm provocado perdas de colheitas em várias partes do planeta, elevando a insegurança alimentar para milhões de pessoas nos próximos meses. A situação, que já se manifesta em regiões tropicais e subtropicais, tem sido observada desde o início de 2024, com impactos visíveis em países da Ásia, África e América Latina.
Secas Extremas e o El Niño: um duplo desafio
Os padrões climáticos anômalos provocados pelo El Niño têm deixado arrozais rachados em Java Ocidental, enquanto áreas de cultivo no Sudeste Asiático enfrentam a escassez de água. Em paralelo, as secas prolongadas na África Ocidental reduzem drasticamente a produção de milho e sorgo, alimentos básicos para a maioria da população local.
Especialistas apontam que a combinação de calor excessivo e precipitação irregular compromete a fertilidade do solo, diminui a eficiência dos fertilizantes e aumenta a incidência de pragas. Como resultado, a produtividade agrícola cai em média 15 % nos locais mais afetados.
Além dos efeitos imediatos, a falta de água também gera conflitos por recursos hídricos, já que comunidades rurais competem por poços e reservatórios cada vez mais escassos.
Conflitos Geopolíticos e a interrupção das cadeias de suprimentos
Ao mesmo tempo em que a natureza reduz a oferta de alimentos, guerras e tensões políticas interrompem as rotas de exportação e elevam os custos de insumos agrícolas. A invasão da Ucrânia, iniciada em 2022, continua a causar volatilidade nos mercados de trigo e milho, afetando países que dependem de importações para garantir a segurança alimentar.
Outro ponto crítico é o conflito entre o Irã e os navios comerciais no Estreito de Ormuz, que tem encarecido o preço do petróleo e, consequentemente, dos fertilizantes nitrogenados. O aumento desses custos afeta diretamente os agricultores de toda a cadeia produtiva, reduzindo ainda mais a capacidade de produção.
Essas interrupções criam um ciclo vicioso: menos alimentos disponíveis elevam os preços, e preços altos aumentam a vulnerabilidade das populações mais pobres, que passam a buscar alternativas violentas para garantir a subsistência.
Mapeamento do risco: o Índice de Declínio Agrícola Impulsionado pelo Clima (Cadi)
Para entender onde os riscos são mais críticos, pesquisadores do Instituto de Análise Econômica (IAE‑CSIC) e da Escola de Economia de Barcelona desenvolveram o Cadi, um índice que mensura a vulnerabilidade agrícola frente às mudanças climáticas. O Cadi combina projeções de temperatura, precipitação e eventos extremos com dados de produtividade histórica.
Segundo o estudo, as regiões mais ameaçadas incluem:
- Camboja
- Bangladesh
- Burundi
- Nigéria
- Paraguai
- El Salvador
Além desses países, o Norte da África aparece como uma zona de alta preocupação, com projeções que indicam uma queda de até 30 % na produção de cereais nos próximos 25 anos.
Curiosamente, o índice também revela que áreas antes marginalizadas, como partes do Sudão, podem ganhar produtividade com as novas condições climáticas, gerando competição por terras e potencializando disputas locais.
Consequências sociais e estratégias de mitigação
Quando as famílias não conseguem alimentar seus filhos, a pressão sobre recursos como terra e água aumenta, desencadeando migrações internas e transfronteiriças. Essa movimentação populacional pode sobrecarregar cidades já vulneráveis, criando focos de instabilidade urbana.
Em sociedades frágeis, a combinação de escassez alimentar e tensões é um terreno fértil para a radicalização e o recrutamento de combatentes por grupos armados. Estudos apontam que, em áreas onde a insegurança alimentar supera 40 %, a probabilidade de ocorrência de conflitos armados cresce significativamente.
Para enfrentar esse cenário, especialistas recomendam políticas integradas que incluam:
- Investimento em tecnologias de irrigação eficientes
- Desenvolvimento de variedades de culturas resistentes à seca
- Criação de reservas estratégicas de grãos
- Fortalecimento de acordos comerciais que garantam fluxos de insumos críticos
Além disso, a cooperação internacional para a redução das emissões de gases de efeito estufa permanece essencial, pois a mitigação climática a longo prazo pode evitar a ampliação dos riscos identificados pelo Cadi.
Em resumo, a intersecção entre mudanças climáticas, escassez alimentar e conflitos geopolíticos forma um panorama complexo que exige ação coordenada entre governos, setor privado e sociedade civil. A única forma de impedir que a fome se transforme em guerra é antecipar os pontos críticos e implementar respostas resilientes antes que as crises se consolidem.








