Na quarta‑feira, 9 de setembro, a Casa Branca retirou do seu portal oficial o jogo digital “Build the Wall”, inspirado no clássico Tetris, que simulava a construção de um muro fronteiriço. A medida foi anunciada pouco depois de uma empresa criadora de jogos denunciar violação de direitos autorais. A retirada ocorreu em Washington, D.C., e gerou debate imediato sobre a estratégia de comunicação do governo americano.
Jogo “Build the Wall” e sua retirada
O título, que exigia que os usuários empilhassem blocos para impedir a chegada de uma suposta “horda” migrante, foi disponibilizado no site da Presidência como parte de uma série de iniciativas lúdicas voltadas à política migratória. A plataforma permitia que o público “construísse” o muro virtual, reforçando a narrativa de proteção fronteiriça que o governo tem promovido nos últimos meses. No dia seguinte à denúncia de uso indevido da marca, a página foi desativada e o link passou a redirecionar para a página principal do site.
Segundo comunicado da desenvolvedora, a empresa responsável pelo código original do jogo enfatizou que leva a sério qualquer infração de propriedade intelectual e que já havia solicitado a remoção imediata do conteúdo. A Casa Branca, por sua vez, afirmou que a retirada foi feita em conformidade com as exigências legais e que não há intenção de reutilizar o material em outras plataformas. Essa ação demonstra como a pressão de detentores de direitos autorais pode influenciar rapidamente decisões de órgãos governamentais.
Reações da Tetris Company e da comunidade internacional
A Tetris Company, guardiã dos direitos da famosa franquia de videogame, divulgou nota oficial afirmando que não participou da criação nem autorizou o uso de sua marca no jogo “Build the Wall”. Em sua publicação no X, antiga rede Twitter, a empresa ressaltou que “na Tetris acreditamos no poder de criar conexões e de unir as pessoas, não de dividi‑las”, condenando a mensagem do jogo. A companhia ainda informou que está analisando o caso para avaliar possíveis medidas legais.
Organizações de direitos humanos, como a Anistia Internacional e a Human Rights Watch, aproveitaram a oportunidade para criticar a estratégia de gamificação da política migratória dos EUA. Elas argumentam que transformar a deportação e a detenção de imigrantes em entretenimento digital desumaniza os afetados e alimenta discursos xenófobos. As críticas foram amplificadas nas redes sociais, onde hashtags como #EndBorderGames ganharam tração.
O cenário migratório dos EUA e outras iniciativas de gamificação
O lançamento de “Build the Wall” ocorreu em meio a um aumento recorde nas detenções de imigrantes pelo ICE, que em julho prendeu 49 571 pessoas, o maior número em um único mês desde o início do segundo mandato de Trump. O Departamento de Segurança Interna (DHS) recebeu um incremento de US$ 70 bilhões em verbas, com objetivo de alcançar a meta de 2 mil prisões diárias estabelecida pela Casa Branca. Essa pressão operacional tem sido acompanhada por campanhas de comunicação que buscam legitimar a política de fronteira.
Além do jogo de blocos, o site da Presidência ofereceu outras duas experiências digitais:
- Rio Run – inspirado no clássico “jogo da cobrinha”, coloca o usuário no controle de Tom Homan, o suposto czar da fronteira, perseguindo imigrantes ao longo do Rio Grande.
- Border Patrol – um simulador de inspeção que permite ao jogador revistar documentos fictícios e decidir quem pode entrar nos Estados Unidos.
Ambas as aplicações utilizam estética retrô e mecânicas simples para atrair um público amplo, mas foram duramente criticadas por trivializar a realidade de milhares de pessoas em situação vulnerável.
Os números de vistos H‑1B também revelam um cenário de retração: o governo americano propôs tornar permanente uma taxa de US$ 103 mil para a emissão de novos vistos de trabalhadores altamente qualificados, o que pode reduzir ainda mais a demanda por profissionais estrangeiros. Em 2023 foram solicitados 794 mil vistos, enquanto em 2024 o número caiu para 344 mil, representando uma queda de mais de 25 %. Essa política, combinada com a intensificação das prisões, indica uma postura mais restritiva e protecionista.
Impactos políticos e econômicos das medidas de imigração
As ações de gamificação e a ampliação das detenções têm repercussões além da esfera simbólica, afetando diretamente setores como tecnologia, educação e pesquisa, que dependem de profissionais estrangeiros. O aumento da taxa de vistos pode desencorajar investimentos estrangeiros e limitar a competitividade das empresas americanas no cenário global. Paralelamente, a pressão sobre organizações de direitos humanos tem gerado debates no Congresso sobre a necessidade de reformas legislativas.
Especialistas apontam que a estratégia de comunicação baseada em jogos pode ser vista como tentativa de normalizar políticas controversas, mas também corre o risco de gerar resistência entre a população digitalmente conectada. Enquanto a Casa Branca busca consolidar sua agenda migratória, a reação de atores internacionais e da sociedade civil sugere que a disputa por narrativas continuará acirrada nos próximos meses.








