A Casa Branca divulgou, na quinta‑feira, 3 de março de 2024, três jogos online que reproduzem, em estilo retrô, a política migratória do governo Trump. Os jogos estão disponíveis no site oficial da Presidência dos Estados Unidos e permitem que o usuário controle personagens que perseguem, detêm e deportam pessoas sem documentos. A iniciativa provocou forte reação de organizações de direitos humanos, que acusam o governo de transformar sofrimento humano em entretenimento.
Os jogos e suas mecânicas
Os três títulos foram criados para atingir diferentes públicos, mas todos compartilham a mesma lógica de “gamificação” da repressão migratória. O primeiro, Rio Run, é inspirado no clássico “jogo da cobrinha” e coloca o jogador no papel de Tom Homan, chefe da fronteira sul, que deve perseguir imigrantes ao longo do Rio Grande. Cada ponto marcado corresponde a um “cidadão” capturado, que é imediatamente enviado para um ícone de deportação.
O segundo título, Build the Wall, reproduz a dinâmica de encaixe de blocos do famoso Tetris. O objetivo é montar, linha por linha, uma barreira física que bloqueie a passagem de pessoas, sob o slogan “Proteja a fronteira da horda que se aproxima”. Cada bloco colocado representa um segmento de muro, e o jogador ganha pontos ao completar linhas inteiras, simbolizando a suposta eficácia da política de isolamento.
Um terceiro jogo, ainda em fase beta, está vinculado ao programa “contas Trump”, que pretende oferecer contas de investimento para crianças nascidas entre 2025 e 2028. Nesse caso, o usuário administra recursos fictícios enquanto acompanha políticas de imigração que afetam o futuro financeiro dos menores.
- Rio Run: controle de personagem, perseguição ao longo do Rio Grande, captura de avatares de diferentes tons de pele.
- Build the Wall: montagem de blocos, construção de muralha, pontuação por linhas completas.
- Contas Trump: simulação de investimento, impacto de políticas migratórias no futuro.
Reação de organizações e da sociedade civil
Grupos de defesa dos direitos dos imigrantes classificaram os jogos como “instrumentos de propaganda que banalizam a violência estatal”. Amérika García Grewal, codiretora da ONG Frontera Federation, afirmou que a iniciativa “dá nojo” e que “eles brincam com a vida das pessoas”.
Além de críticas de ONGs, políticos democratas também condenaram a medida, argumentando que transformar políticas de deportação em entretenimento pode normalizar a desumanização dos migrantes. Nas redes sociais, milhares de usuários compartilharam screenshots dos jogos, acompanhados de mensagens de protesto e pedidos de boicote ao site da Casa Branca.
Por outro lado, a administração Trump defendeu a estratégia como forma de “educar o público americano” sobre as supostas conquistas do seu governo. Um porta‑voz da Casa Branca declarou que os jogos “ressaltam o contraste entre uma cultura divertida e a visão socialista sombria que os democratas têm para os Estados Unidos”.
Contexto migratório e implicações políticas
O lançamento dos jogos ocorre em meio a um aumento histórico das detenções de imigrantes nos Estados Unidos. Em julho de 2024, o ICE (Immigration and Customs Enforcement) prendeu 49.571 pessoas, número recorde desde o início do segundo mandato de Trump e o mais alto em pelo menos quatro anos.
Esse crescimento está ligado a um incremento de US$ 70 bilhões (cerca de R$ 360 bilhões) no orçamento do Departamento de Segurança Interna (DHS), que supervisiona o ICE. O objetivo declarado é alcançar a meta de 2 mil prisões diárias, o que tem resultado em abordagens cada vez mais frequentes em aeroportos, residências e até em compromissos obrigatórios nos escritórios de imigração.
Além das prisões, o governo tem avançado em outras frentes restritivas: suspensão de programas de asilo, endurecimento dos critérios para obtenção de Green Card e, recentemente, proposta de tornar permanente uma taxa de US$ 103 mil para emissão de vistos H‑1B, destinados a profissionais altamente qualificados. Essa medida, que ainda não foi aprovada, pode reduzir drasticamente a entrada de trabalhadores estrangeiros nos setores de tecnologia, educação e pesquisa.
Os números revelam um declínio acentuado na demanda por vistos H‑1B: em 2023 foram solicitados 794 mil vistos, enquanto em 2024 o número caiu para 344 mil, representando uma queda de mais de 25 %. Analistas apontam que o aumento dos custos e o clima hostil à imigração são fatores decisivos para essa retração.
Em síntese, os jogos lançados pela Casa Branca são mais do que simples distrações digitais; eles representam uma extensão da estratégia de comunicação do governo, que busca legitimar políticas de exclusão ao transformá‑las em conteúdo lúdico. A reação da sociedade civil indica que a tática pode estar gerando o efeito contrário, ao expor de forma clara e visual o impacto humano das medidas adotadas.








