Em 9 de outubro de 2026, a revista VEJA publicou uma análise profunda sobre os obstáculos e oportunidades que o Brasil enfrenta para alcançar um crescimento sustentável. O texto traz reflexões de economistas internacionais e compara experiências de países que conseguiram transformar suas economias, apontando caminhos possíveis para o país sul‑americano.
Desafios estruturais que limitam o crescimento
Instituições frágeis, clientelismo e patrimonialismo ainda são fatores que corroem a eficiência do Estado brasileiro. A falta de instrução e a verticalização das relações sociais criam um ambiente onde decisões são tomadas por interesses de grupos específicos, em vez do bem‑comum.
Além disso, a geografia do Brasil oferece abundância de recursos naturais, mas também impõe barreiras logísticas. A distância das principais rotas comerciais internacionais aumenta os custos de exportação, reduzindo a competitividade dos produtos nacionais.
Essas questões estruturais são difíceis de mudar rapidamente, mas não são intransponíveis. Reformas institucionais que aumentem a transparência, a meritocracia e a eficiência administrativa são passos fundamentais para criar um ambiente favorável ao investimento.
O papel da demografia e da força de trabalho
Segundo o economista Ruchir Sharma, a demografia responde por cerca de um terço do crescimento dos países que conseguiram saltos de desenvolvimento. Para que a força de trabalho impulsione a economia, ela precisa crescer ao menos 2% ao ano.
O Brasil possui uma população jovem, mas a taxa de participação no mercado de trabalho ainda está aquém do potencial. Políticas que incentivem a formação profissional, a inserção de jovens no mercado e a retenção de talentos são essenciais para transformar esse capital humano em motor de crescimento.
Sharma também destaca o “ciclo da vida” das economias: períodos de austeridade seguidos por fases de expansão. Ele cita a Grécia como exemplo de reformas sustentadas que, embora dolorosas, estabilizaram o país e abriram espaço para crescimento futuro.
A importância da infraestrutura versus gasto social
Um dos argumentos centrais de Sharma é que o investimento deve priorizar a infraestrutura antes de direcionar recursos massivos a benefícios sociais. Países como China e Coreia do Sul construíram primeiro estradas, portos e redes de energia, criando a base para o desenvolvimento econômico.
Quando o grosso dos recursos vai para benefícios sem a contrapartida de obras produtivas, o crescimento fica comprometido. O Brasil ainda gasta uma parcela significativa do orçamento em programas de assistência sem garantir que a infraestrutura necessária para gerar riqueza esteja em dia.
- China: investimento maciço em ferrovias, portos e energia antes da ampliação de programas sociais.
- Coreia do Sul: foco em tecnologia e infraestrutura industrial nos anos 1970.
- Brasil: necessidade de melhorar rodovias, ferrovias e portos para reduzir custos logísticos.
Além disso, o endividamento excessivo do setor privado e o déficit em conta corrente são sinais de vulnerabilidade que podem desencadear crises financeiras, como alerta Sharma.
Cenários de crescimento e o futuro da renda per capita
Se o Brasil conseguisse manter um crescimento anual de 6%, a renda per capita de US$ 12 mil poderia subir para US$ 30 mil em apenas quinze anos, atingindo esse patamar em 2041. Contudo, esse ritmo é considerado inviável nas condições atuais.
Com um crescimento mais realista de 4% ao ano, o salto seria alcançado em 23 anos, ou seja, em 2049. No cenário mais conservador, com 2% de crescimento, o país precisaria de 45 anos, projetando a meta para 2071.
Esses números mostram que o futuro depende tanto de fatores internos – como reformas fiscais, investimento em infraestrutura e melhoria institucional – quanto de condições externas, como a demanda global por commodities e a estabilidade das economias parceiras.
Sharma resume o dilema em uma frase: “É difícil dar certo e fácil dar errado”. Essa advertência reforça a necessidade de decisões estratégicas, baseadas em evidências, para que o próximo governo possa transformar desafios em oportunidades.








