Em outubro de 2026, a Câmara dos Deputados iniciou discussões para mudar o modelo de escolha dos parlamentares, propondo a adoção do sistema distrital misto nas eleições de 2034. A iniciativa surge como resposta ao crescimento da bancada do Partido Liberal (PL) e ao recuo dos partidos de centro, que temem perder ainda mais espaço no Congresso.
Contexto político e a ascensão do PL
Nas eleições de 2026, o PL conquistou 121 cadeiras, a maior bancada da história recente, representando 23,6% das 513 vagas. Esse salto de 22 cadeiras em relação a 2022 reduziu significativamente a presença do Centrão, que perdeu 22 assentos. O desequilíbrio gerou preocupação entre lideranças centristas, que buscam mecanismos para preservar seu poder.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), destacou que a mudança no sistema eleitoral seria um caminho para conter a expansão do PL e a influência da ala bolsonarista. Motta tem mantido diálogos com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para garantir apoio senatorial, já que a reforma não altera a forma de escolha dos senadores.
Além do PL, outros partidos de centro, como o PSD e o Progressistas, também manifestaram interesse em proteger suas lideranças regionais. Eles temem que a continuidade do sistema proporcional favoreça candidatos com grande apelo nacional, em detrimento de representantes locais.
Proposta de sistema distrital misto e seus detalhes
A proposta, que deve ser apresentada como PEC, prevê a combinação de dois modelos: o distrital, que elege candidatos por distrito geográfico, e o proporcional, que mantém parte das vagas distribuídas segundo o quociente eleitoral. O objetivo é equilibrar a representatividade local com a força dos partidos.
O relator provável, deputado Domingos Neto (PSD-CE), já atua em projetos semelhantes e tem defendido a criação de distritos com número fixo de deputados, variando conforme a população de cada estado. As principais características do modelo misto são:
- Metade das cadeiras seria preenchida pelo voto distrital, com candidatos eleitos diretamente pelos eleitores de cada distrito.
- A outra metade permaneceria sob o sistema proporcional, usando o quociente eleitoral para distribuir vagas entre os partidos.
- Os partidos manteriam listas regionais, garantindo que lideranças locais continuem representadas.
- O TSE seria responsável por definir os limites dos distritos e validar os resultados.
Defensores como Gilberto Kassab (PSD) e Ciro Nogueira (Progressistas) argumentam que o modelo misto reduz a dependência de “puxadores de votos” – candidatos que, ao receber muitos votos, arrastam colegas menos votados para o Congresso. No entanto, críticos, como a deputada Adriana Ventura (Novo-SP), alertam que o sistema pode tornar as eleições mais fragmentadas e vulneráveis a disputas locais intensas.
Desafios e perspectivas para a aprovação
A tramitação da PEC ainda está nos estágios iniciais. Hugo Motta pretende concluir as negociações em 2026, mas reconhece que o apoio do PT e do próprio PL será decisivo. O PL, que se beneficia do atual modelo proporcional, não demonstra interesse em alterar o sistema, temendo perder vantagens eleitorais.
Do outro lado, o PT tem receio de que a reforma seja usada como ferramenta política contra a bancada bolsonarista, especialmente após a vitória expressiva de candidatos como Nikolas Ferreira (PL-MG) e Erika Hilton (PSOL-SP) que, no sistema atual, puxaram outros candidatos de seus partidos.
Além das barreiras partidárias, há questões técnicas que ainda precisam ser resolvidas, como a definição dos limites dos distritos e a forma de cálculo do quociente misto. O TSE será convocado para elaborar normas que garantam a igualdade de voto entre regiões distintas.
Se a PEC for aprovada, a transição será gradual. Nas eleições de 2028, seria aplicada apenas a parte distrital, enquanto o restante continuaria proporcional. Apenas em 2034 o modelo misto seria implementado em sua totalidade, permitindo que partidos e eleitores se adaptem ao novo cenário.
O futuro do Congresso Nacional dependerá, portanto, da capacidade dos líderes centristas de construir consensos amplos e da disposição dos partidos de oposição em aceitar mudanças estruturais. Enquanto isso, a discussão permanece viva nos corredores da Câmara, nas entrevistas à imprensa e nos debates públicos sobre a representatividade democrática no Brasil.








