Na manhã do domingo, 22 de setembro de 2026, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Nova York para discursar na Assembleia Geral das Nações Unidas, marcando a abertura oficial do encontro anual. O Brasil, como de costume, foi o primeiro país a subir ao púlpito, reforçando um papel que ocupa há mais de sete décadas. Essa prática, embora não esteja escrita em nenhum tratado, tornou‑se um símbolo da diplomacia brasileira no cenário global.
Origem histórica da tradição brasileira
O ponto de partida da costumbre remonta ao ano de 1949, quando o mundo vivia o embate da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. Naquele contexto, os organizadores da ONU buscaram evitar que a disputa bipolar dominasse a agenda da sessão inaugural.
Foi então que o Brasil, ainda recém‑integrado ao organismo, recebeu a proposta de abrir o debate geral. A escolha visava equilibrar as influências das duas superpotências, concedendo a um país neutro um espaço de destaque simbólico.
Segundo o estudo “O Brasil nas Nações Unidas, 1946‑2011”, publicado pela Fundação Alexandre de Gusmão, a decisão foi mais política que protocolar, refletindo a necessidade de um terceiro ator que não fosse nem Washington nem Moscou.
Ao longo dos anos 1950, a prática se consolidou. Em 1955, o Brasil iniciou uma sequência ininterrupta de aberturas, seguida pelos Estados Unidos, que assumiam a posição de país anfitrião da sessão.
Exceções pontuais ocorreram apenas quando atrasos logísticos impediram a presença do presidente brasileiro, como nos anos de 1983, 1984 e, mais recentemente, em 2016, quando o presidente dos EUA chegou atrasado e o Chade assumiu a segunda fala.
Esses episódios raros reforçaram a ideia de que a tradição era resiliente, capaz de se adaptar a imprevistos sem perder a lógica central de dar ao Brasil a palavra inaugural.
A continuidade da prática ao longo de sete décadas transformou‑a em um elemento quase institucional, reconhecido pelos diplomatas de todas as nações como parte do ritual da Assembleia Geral.
Motivações diplomáticas e estratégicas
Para o Brasil, o discurso de abertura não é apenas cerimonial; ele representa uma oportunidade única de projetar sua visão de mundo diante de chefes de Estado, representantes de organizações internacionais e da imprensa global.
Os primeiros discursos focaram em temas amplos, como a defesa da paz, a cooperação Sul‑Sul e a necessidade de reformas nas instituições multilaterais, buscando posicionar o país como um mediador confiável.
Ao longo das décadas, a retórica evoluiu, incorporando pautas específicas como o combate à fome, o desenvolvimento sustentável e a reforma da ONU, refletindo as prioridades internas e externas de cada governo.
O professor Lucas Leite, da Fundação Armando Alvares Penteado, destaca que a tradição também tem raízes formais: “O gesto dialogava com o papel que o país buscava exercer no pós‑guerra, uma voz ativa no multilateralismo, mesmo sem ser membro permanente do Conselho de Segurança”.
Essa estratégia funciona como um “prêmio de consolação”, segundo Leite, pois o Brasil, apesar de não deter poder de veto, ganha legitimidade ao ocupar a primeira fala, sinalizando confiança da comunidade internacional em sua diplomacia.
Além disso, o discurso inaugural permite ao país lançar mensagens de política externa que reverberam nas negociações subsequentes, influenciando a agenda de temas como mudança climática, migrações e comércio internacional.
Em síntese, a prática transforma um momento protocolar em um instrumento de soft power, ampliando a influência do Brasil em fóruns onde, de outra forma, sua voz poderia ser ofuscada.
Como funciona o protocolo de discursos na ONU
O calendário da Assembleia Geral segue um roteiro bem definido, embora flexível o suficiente para acomodar imprevistos de última hora. O primeiro discurso, tradicionalmente, cabe ao Brasil, seguido pelos Estados Unidos, que são os anfitriões da sessão.
Depois desses dois, a ordem dos oradores é estabelecida com base em critérios como o nível da autoridade representada, a necessidade de equilíbrio geográfico e a ordem de inscrição feita pelos países membros.
- Autoridade: chefes de Estado ou de governo têm prioridade sobre ministros e outros representantes.
- Equilíbrio geográfico: busca‑se alternar regiões para evitar concentração de falas de um mesmo continente.
- Inscrição: os países que se registram mais cedo garantem posições mais avançadas na lista.
Essa lógica garante que, apesar da primazia brasileira, o restante da agenda reflita a diversidade de vozes presentes na ONU.
Quando ocorrem atrasos ou ausências inesperadas, o Secretariado da ONU reorganiza a sequência, como aconteceu em 2016, quando o presidente americano chegou tarde e o Chade assumiu a segunda fala.
O protocolo também prevê que, caso o Brasil não possa comparecer, outro país pode ser convidado a abrir a sessão, embora isso seja extremamente raro.
Essa estrutura rígida, porém adaptável, assegura que a Assembleia mantenha um fluxo ordenado, ao mesmo tempo em que respeita as tradições históricas que conferem legitimidade ao processo.
Assim, a prática de abrir a sessão se mantém como um elemento estável dentro de um sistema que equilibra tradição e flexibilidade.
Impactos atuais e perspectivas futuras
Nos últimos anos, o discurso inaugural tem sido usado como palco para anunciar iniciativas globais, como a campanha contra a fome extrema, o reforço da agenda de desenvolvimento sustentável e a proposta de reforma do Conselho de Segurança.
Em 2022, por exemplo, o presidente brasileiro destacou a importância de fortalecer a cooperação entre os países do Sul Global, enfatizando a necessidade de recursos financeiros mais equitativos para projetos de infraestrutura.
Já em 2024, o foco recaiu sobre a crise climática, com o Brasil apresentando metas ambiciosas de redução de emissões e propondo um fundo verde para nações vulneráveis.
Essas intervenções não apenas aumentam a visibilidade do país, mas também criam oportunidades de negociação bilateral e multilateral nos bastidores da ONU.
Especialistas apontam que a tradição pode evoluir à medida que o Brasil busca consolidar sua posição como líder regional e defensor do multilateralismo, especialmente em um cenário internacional marcado por tensões geopolíticas.
O futuro da prática depende, em parte, da continuidade do apoio interno ao engajamento multilateral e da capacidade do governo de traduzir o discurso em ações concretas nos fóruns internacionais.
Entretanto, enquanto a tradição permanecer, o Brasil continuará a usufruir de um espaço privilegiado para influenciar a agenda global, reforçando sua imagem de país mediador e agente de mudança.








