Em 16 de julho de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, estabelecendo diretrizes para a exploração e o processamento desses recursos dentro do território brasileiro. A medida foi assinada em Brasília e tem como objetivo principal fortalecer a cadeia produtiva nacional, reduzindo a dependência de importações e atraindo investimentos privados.
Contexto da sanção e seus objetivos estratégicos
A iniciativa surge em um cenário de crescente demanda global por minerais essenciais à transição energética, como lítio, cobalto, nióbio e terras raras. O governo reconheceu que o Brasil possui reservas significativas, mas ainda carece de infraestrutura de beneficiamento e de políticas de incentivo adequadas. Assim, a nova agenda procura transformar o país em um polo de produção avançada, alinhado às metas de neoindustrialização.
Além de buscar autonomia tecnológica, a política pretende criar um ambiente regulatório mais transparente, facilitando a participação de empresas nacionais e estrangeiras que cumpram requisitos de sustentabilidade e responsabilidade social. O presidente enfatizou que a medida representa uma “declaração de independência econômica”, reforçando a soberania nacional sobre recursos estratégicos.
Principais componentes da política
O texto sancionado traz quatro pilares fundamentais: a criação de um fundo garantidor, a concessão de crédito tributário, a formação de um conselho nacional e a revisão periódica da lista de minerais críticos.
- Fundo garantidor: até R$ 5 bilhões, com aporte máximo de R$ 2 bilhões da União como cotista, destinado a financiar projetos de exploração e beneficiamento.
- Crédito tributário: incentivo de R$ 5 bilhões para empresas que realizarem o processamento interno dos minerais, reduzindo a carga fiscal sobre investimentos.
- Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos (CIMCE): órgão vinculado à Presidência responsável por definir a lista de minerais estratégicos e atualizar a cada quatro anos.
- Orçamento para pesquisa: aumento de R$ 8 milhões para R$ 300 milhões no próximo exercício, fortalecendo a capacidade de exploração e avaliação de depósitos.
O fundo, de natureza privada, não poderá contar com garantias ou aval direto do poder público, mas permitirá a apresentação de garantias reais em operações de crédito, ampliando o acesso das empresas a recursos financeiros.
Repercussões internacionais e estratégicas
Os Estados Unidos têm demonstrado interesse crescente nas reservas brasileiras, especialmente nas terras raras, que são essenciais para a fabricação de eletrônicos, veículos elétricos e sistemas de defesa. Recentemente, a empresa americana USA Rare Earth avançou na compra da Serra Verde, única mineradora de terras raras em operação no país, gerando debates intensos sobre soberania e segurança nacional.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, destacou que a política representa coragem política ao resistir a pressões externas. Ele ressaltou que a verdadeira oportunidade não está apenas na extração, mas na capacidade de desenvolver todo o ciclo produtivo – do beneficiamento ao refino – dentro das fronteiras brasileiras.
Especialistas apontam que, ao consolidar uma cadeia de valor completa, o Brasil pode reduzir a vulnerabilidade a flutuações de preço no mercado internacional e aumentar sua influência nas negociações comerciais relacionadas a minerais estratégicos.
Desafios e perspectivas futuras
Apesar do potencial, o país ainda enfrenta obstáculos significativos, como a limitada capacidade de pesquisa da Agência Nacional de Mineração (ANM) e a necessidade de atrair capital tecnológico avançado. O aumento previsto no orçamento de pesquisa para R$ 300 milhões representa um avanço, mas ainda pode ser insuficiente para mapear todo o potencial mineral do território.
Outro ponto crítico é a necessidade de articulação entre os diferentes níveis de governo. O projeto permite que estados, Distrito Federal e municípios contribuam voluntariamente para o fundo, ampliando a base de recursos e incentivando a cooperação regional.
Para garantir a eficácia da política, será essencial monitorar a implementação das ações do CIMCE, garantir a transparência nas decisões de listagem de minerais e promover a capacitação de mão de obra especializada. Investimentos em educação técnica e em centros de pesquisa serão determinantes para transformar a oferta de recursos em valor agregado.
O BNDES estimou que o volume total de recursos necessários para destravar os projetos pode chegar a R$ 5 bilhões, reforçando a importância do fundo garantidor como alavanca financeira. A expectativa é que, nos próximos cinco anos, o Brasil consiga aumentar a participação de minerais críticos no PIB, criando novos empregos e impulsionando a competitividade internacional.
Em síntese, a política sancionada busca aliar soberania nacional, desenvolvimento econômico e responsabilidade ambiental. Se bem executada, ela tem o potencial de posicionar o Brasil como líder global na cadeia de valor dos minerais críticos, contribuindo para a transição energética mundial e para a segurança de suprimentos estratégicos.








