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Brasil ainda tem 44,8 milhões sem acesso a alimentação saudável, apesar de sair do Mapa da Fome

O Brasil saiu do Mapa da Fome em julho de 2026, conforme anúncio da ONU, mas ainda enfrenta um problema grave: 44,8 milhões de pessoas não conseguem pagar por uma alimentação saudável. O dado foi divulgado no relatório “O Estado da Segurança Alimentar e da Nutrição no Mundo” (SOFI), publicado em julho deste ano. A situação afeta cerca de um quinto da população brasileira, espalhada por todas as regiões do país.

Desafios persistentes após a saída do Mapa da Fome

Mesmo depois da retirada do país do mapa, a insegurança alimentar moderada ou grave persiste em números alarmantes. Entre 2023 e 2025, 20,3 milhões de brasileiros viveram sem acesso regular a alimentos nutritivos, número que ainda está muito acima da meta global de redução da fome. Nos anos anteriores, entre 2021 e 2023, esse número havia chegado a 39,7 milhões, indicando que a situação ainda não foi totalmente revertida.

Os especialistas apontam que a queda dos indicadores de fome não significa a eliminação dos problemas estruturais. A falta de renda suficiente, a informalidade no mercado de trabalho e a precariedade dos salários são fatores que mantêm milhões de famílias à margem de uma dieta equilibrada. Sem um salário que cubra as necessidades básicas, a cesta alimentar saudável permanece fora do alcance da maioria.

Causas estruturais da insegurança alimentar

Silvia Aparecida Zimmermann, coordenadora da Rede Penssan, relaciona a vulnerabilidade alimentar à instabilidade de renda das categorias mais frágeis, como trabalhadoras domésticas e pequenos produtores. Ela destaca que a renda descontínua impede a compra regular de frutas, verduras, leguminosas e fontes de proteína, itens essenciais para uma dieta recomendada pela ONU.

Elisabetta Recine, presidente do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea), acrescenta que as políticas públicas ainda falham em garantir continuidade no atendimento. Segundo ela, a falta de integração entre programas de assistência social, saúde e agricultura cria lacunas que deixam famílias vulneráveis sem suporte adequado.

Além das questões de renda, a geografia do país também influencia. Regiões como o Nordeste e o Norte concentram maior parte dos índices de insegurança, devido à menor densidade de mercados, ao alto custo de transporte de alimentos e à limitada oferta de crédito para pequenos agricultores.

Caminhos para garantir alimentação saudável a todos

Para reverter esse quadro, especialistas recomendam um conjunto de medidas que vão além da simples distribuição de alimentos. É preciso elevar a renda, fortalecer a produção local e garantir recursos estáveis para programas de segurança alimentar. A seguir, listamos as principais estratégias apontadas pelos especialistas:

  • Reajuste do salário mínimo acima da inflação: garante poder de compra para famílias de baixa renda.
  • Ampliação e fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA): conecta pequenos produtores a mercados institucionais, aumentando a oferta de alimentos frescos.
  • Expansão de programas de transferência de renda condicionada: como o Bolsa Família, que pode ser adaptado para incluir requisitos nutricionais.
  • Incentivo à agricultura familiar: por meio de crédito barato, assistência técnica e seguros agrícolas.
  • Integração de serviços de saúde e nutrição: para monitorar o estado nutricional e oferecer orientação dietética personalizada.

Outra recomendação importante é a criação de uma cesta básica de alimentos saudáveis, cujos custos são monitorados periodicamente. A ONU calcula esse valor comparando o preço de 11 alimentos essenciais com a renda disponível das famílias, depois de descontadas despesas como moradia, vestuário e transporte. Quando a cesta ultrapassa 30% da renda disponível, a família entra em situação de vulnerabilidade alimentar.

O governo federal já iniciou alguns passos nesse sentido, como o aumento do salário mínimo em 2024 e a retomada de compras de alimentos da agricultura familiar pelo PAA. No entanto, críticos apontam que a execução ainda é fragmentada e que os recursos não são suficientes para cobrir todas as regiões mais afetadas.

Além das políticas econômicas, a educação alimentar tem papel crucial. Programas escolares que ensinam crianças a escolher e preparar alimentos saudáveis podem gerar mudanças de longo prazo, reduzindo a dependência de dietas ultraprocessadas e aumentando a demanda por produtos frescos.

Por fim, a participação da sociedade civil é essencial. Organizações não governamentais, movimentos sociais e cooperativas podem atuar como ponte entre o Estado e as comunidades, facilitando a distribuição de alimentos, o acesso a crédito e a capacitação de pequenos produtores.

Em síntese, embora o Brasil tenha alcançado a saída do Mapa da Fome, ainda há um longo caminho a percorrer para garantir que todos os cidadãos possam pagar por uma alimentação saudável. A combinação de políticas de renda, apoio à produção local, integração de serviços públicos e educação alimentar representa a estratégia mais eficaz para reduzir os 44,8 milhões de brasileiros que ainda vivem à margem de uma dieta adequada.

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