Cientistas britânicos desenvolveram uma nova variedade de banana que demora mais a escurecer após ser cortada, anunciada em 2024 no Reino Unido. A inovação, criada pela empresa de biotecnologia agrícola Tropic, mantém a fruta amarela e apetitosamente fresca por dias, mesmo depois de aberta. Essa descoberta chega em um momento de crescente preocupação com o desperdício alimentar e a pegada de carbono da cadeia produtiva.
Como funciona a edição genética CRISPR-Cas9
A Tropic utilizou a ferramenta de edição de genes CRISPR-Cas9 para reduzir a produção da enzima polifenol oxidase (PPO), responsável pelo escurecimento da polpa ao entrar em contato com o oxigênio. O método permite desativar ou silenciar o gene que codifica a PPO sem inserir DNA de outras espécies, preservando a integridade genética da banana.
Ao cortar a fruta, a enzima normalmente catalisa a oxidação dos compostos fenólicos, gerando melaninas que escurecem a superfície. Com a expressão da PPO drasticamente diminuída, o processo de oxidação é retardado, prolongando a cor amarela por até dois dias em temperatura ambiente e ainda mais tempo se a fruta for refrigerada.
Essa abordagem de “melhoramento genético de precisão” difere das técnicas de transgênicos tradicionais, pois não cria organismos que contêm genes de espécies não relacionadas. O resultado é uma banana que conserva sabor, textura e valor nutricional, mas com maior estabilidade visual após o corte.
Impactos ambientais e econômicos
O desperdício de bananas é um problema significativo nos mercados globais. Um estudo do governo britânico de 2017 apontou que, diariamente, 1,4 milhão de bananas próprias para consumo eram descartadas no Reino Unido, muitas vezes por apresentarem manchas pretas ou amassados superficiais.
Ao prolongar a vida útil da fruta cortada, a nova variedade pode reduzir drasticamente esse volume de descarte. A Tropic estima que, apenas no mercado de exportação, a tecnologia pode evitar mais de 9 milhões de toneladas de emissões de CO₂ por ano, graças à diminuição de resíduos e à menor necessidade de transporte de reposição.
Além dos benefícios ambientais, há ganhos econômicos para produtores, varejistas e consumidores. Menos perdas significam maior rentabilidade para os agricultores, menor pressão sobre os preços de varejo e um produto mais atraente para cadeias de suprimentos que demandam frutas pré‑cortadas, como saladas de frutas prontas e cafés da manhã corporativos.
- Redução de perdas pós-colheita em até 30%.
- Diminuição de emissões de CO₂ associadas ao descarte e ao transporte.
- Aumento da vida útil de produtos pré‑embalados, ampliando a margem de lucro.
- Melhoria da percepção do consumidor sobre qualidade e sustentabilidade.
Esses números são particularmente relevantes para países como o Brasil, que está entre os maiores produtores e consumidores de bananas do mundo. A aprovação da variedade no Brasil abre caminho para que agricultores locais adotem a tecnologia e participem de cadeias de valor mais sustentáveis.
Desafios regulatórios e perspectivas de mercado
No Reino Unido, o Departamento de Meio Ambiente, Alimentação e Assuntos Rurais (Defra) aprovou a notificação de comercialização, reconhecendo a banana como uma “variedade melhorada com precisão”. Essa classificação atende aos requisitos da legislação britânica sobre plantas geneticamente editadas, que entrou em vigor em novembro de 2025.
Apesar da aprovação preliminar, a fruta ainda precisa passar pela avaliação da Agência de Padrões Alimentares do Reino Unido antes de chegar às prateleiras. Esse processo inclui análise de segurança alimentar, rastreabilidade e possíveis impactos na saúde humana.
Fora do Reino Unido, a Tropic já obteve autorizações para comercializar a banana no Brasil, Japão e Filipinas. No Brasil, a aprovação é estratégica, pois o país possui uma cadeia de produção robusta e um mercado interno que consome milhões de toneladas de bananas anualmente.
A revista Time destacou a banana que não oxida como uma das melhores invenções do ano, reforçando o potencial de aceitação global. A inovação também tem atraído interesse de empresas de alimentos que buscam ingredientes estáveis para produtos prontos, como iogurtes com frutas, smoothies e refeições congeladas.
Entretanto, a aceitação do consumidor ainda depende de campanhas de informação transparentes, que expliquem que a fruta não contém genes de outras espécies e que a edição foi feita de forma precisa e segura. A comunicação clara sobre os benefícios ambientais e econômicos pode acelerar a adoção.
Em resumo, a banana editada com CRISPR-Cas9 representa um marco na aplicação da biotecnologia para reduzir o desperdício de alimentos. Ao combinar ciência de ponta, benefícios ambientais e potencial de mercado, a inovação oferece um caminho viável para tornar a cadeia de suprimentos de bananas mais resiliente e sustentável.








