O espetáculo “O Neguinho da Beixa-Flor – Musical” estreou ontem, 10 de outubro de 2024, no tradicional Teatro João Caetano, localizado no centro do Rio de Janeiro. A produção celebra a vida e a carreira do lendário puxador da escola Beija-Flor, ícone do Carnaval carioca. Em cartaz até 1º de novembro, o musical promete emocionar fãs de samba e de teatro.
Contexto histórico e cultural
Neguinho da Beija-Flor iniciou sua trajetória nas ruas de Nilópolis em 1976, quando, ainda desconhecido, compôs o samba‑enredo “Sonhar com rei dá leão”. Seu talento vocal e carisma o levaram a integrar a Ala de Compositores da escola, marcando o início de uma era de sucessos.
Ao lado do visionário carnavalesco Joãosinho Trinta, a Beija‑Flor conquistou seu primeiro título na elite carioca naquele mesmo ano, consolidando Neguinho como a voz que conduzia a agremiação ao pódio. Nos cinquenta carnavais seguintes, o sambista foi puxador em quinze conquistas, tornando‑se sinônimo de vitória.
Em 2024, a história do artista foi adaptada para o cenário de um desfile em Porto Alegre, quando a Vila Isabel de Viamão homenageou o ícone com o enredo “Neguinho do mundo, flor que a Vila Beija”. Essa homenagem reforçou a relevância nacional de sua trajetória, que ultrapassa as fronteiras do Rio.
- 1976 – Primeiro título da Beija‑Flor com Neguinho como puxador.
- 1990‑2000 – Período de ouro com múltiplas vitórias.
- 2008 – Luta contra o câncer, superada com apoio espiritual.
- 2024 – Adaptação biográfica em musical no Teatro João Caetano.
A montagem do musical
A peça foi escrita por Aydano André Motta, jornalista especializado em Carnaval e autor de livros sobre a festa. Motta, que já dirigiu a série documental “Neguinho da Beija‑Flor – Soberano da avenida” para o Globoplay, traz ao roteiro um conhecimento profundo dos bastidores da avenida.
Luiz Antonio Pilar assumiu a direção artística, imprimindo ao espetáculo uma forte carga de espiritualidade afro‑brasileira. A cenografia, assinada por Lorena Lima, destaca guias e elementos simbólicos que remetem ao universo dos orixás, como a presença de uma ialorixá interpretada por Verônica Bonfim.
O ator Izak Dahora encarna o protagonista, combinando atuação dramática e performance vocal. Em cenas que retratam a batalha contra o câncer em 2008, Dahora transmite vulnerabilidade e esperança, enquanto o ritual do banho de pipoca simboliza a cura pelo orixá Obaluaê.
O musical tem duração de duas horas e vinte minutos, divididos em dois atos cronometrados por um relógio posicionado à direita do palco, lembrando a contagem regressiva dos desfiles. Essa escolha reforça a ligação entre o teatro e a cadência do Carnaval.
Desempenho e repercussão
Desde a estreia, a plateia tem aplaudido de pé a interpretação de Dahora, que consegue reproduzir o timbre caloroso do sambista e ao mesmo tempo revelar a humanidade do artista. Críticos elogiam a capacidade da produção de equilibrar fatos biográficos com liberdade criativa, sem perder a essência do samba.
O público também tem respondido positivamente à integração de elementos religiosos, que trazem uma camada adicional de significado à narrativa. A cena em que a ialorixá conduz o ritual de cura foi destacada como um dos momentos mais emocionantes da peça.
Nas redes sociais, hashtags como #NeguinhoDaBeijaFlor, #MusicalRJ e #TeatroJoãoCaetano ganharam destaque, indicando o alcance da produção entre os amantes do Carnaval e do teatro. A bilheteria tem registrado ocupação acima de 80% nos dias úteis, sinalizando forte demanda.
Especialistas apontam que o sucesso da montagem pode abrir caminho para novos projetos biográficos no cenário teatral brasileiro, mostrando que a história do Carnaval pode ser contada de forma inovadora e ainda assim respeitar suas raízes.
Em síntese, o espetáculo cumpre seu papel de homenagear um dos maiores ícones da cultura popular, ao mesmo tempo que oferece ao público uma experiência sensorial que combina música, dança, drama e espiritualidade. A expectativa é que a produção continue em cartaz até o fim de novembro, consolidando-se como um marco da programação cultural do Rio.








