Em entrevista ao programa VEJA em Foco, Marcelo Tokarski, CEO do instituto de pesquisa Nexus, analisou o impacto dos apoios de candidatos eliminados no primeiro turno nas eleições presidenciais de 2026, realizadas em outubro no Brasil. O especialista destacou que a migração de eleitores não segue apenas as alianças formais anunciadas, mas está fortemente ligada à rejeição que o eleitor tem pelos dois candidatos que avançaram para o segundo turno.
Rejeição como motor da migração de votos
Tokarski explicou que, nos primeiros levantamentos do segundo turno, os eleitores que originalmente apoiaram outros nomes tendem a migrar mais para Flávio Bolsonaro. Essa tendência, segundo ele, não decorre da formalização de apoio político, mas sim de um sentimento de insatisfação com o presidente Lula.
Ele ressaltou que muitos brasileiros buscaram alternativas à polarização no primeiro turno, mas foram forçados a escolher entre o petista e o candidato do PL quando a disputa se restringiu a dois nomes. Essa escolha, muitas vezes, é guiada pela percepção de rejeição ao candidato considerado mais impopular.
Os primeiros dados indicam que a rejeição ao presidente Lula supera a rejeição a Flávio Bolsonaro, o que pode explicar a vantagem numérica do senador nas pesquisas divulgadas recentemente. Contudo, Tokarski alertou que o cenário ainda está em fluxo e pode mudar à medida que a campanha avança.
Fatores que influenciam a decisão do eleitor
Segundo o CEO da Nexus, três fatores principais explicam a migração de votos:
- Rejeição relativa: a diferença de rejeição entre os dois candidatos principais.
- Alianças implícitas: a percepção de que um candidato pode representar uma continuidade ou ruptura de políticas.
- Carisma e liderança: a capacidade de figuras como Lula e Jair Bolsonaro de mobilizar eleitores.
Ele enfatizou que, embora alianças formais tenham algum peso, o eleitorado brasileiro costuma ser mais sensível à imagem de rejeição do que a acordos de bastidores.
Além disso, Tokarski citou que a decisão de Jair Bolsonaro de lançar a candidatura de seu filho, Flávio, em dezembro do ano passado, apesar da pressão de setores que defendiam Tarcísio de Freitas, demonstra como líderes carismáticos podem influenciar diretamente a escolha de seus seguidores.
Flávio Bolsonaro apareceu nas primeiras pesquisas com cerca de 30% das intenções de voto e tem ampliado seu desempenho ao longo da campanha, reforçando a ideia de que o apoio de lideranças pode ser decisivo, mas ainda está subordinado ao grau de rejeição ao adversário.
Comparativos históricos e lições para a campanha
O especialista também trouxe à tona a eleição presidencial de 2018 como referência. Naquela ocasião, Lula apoiou Fernando Haddad, que chegou ao segundo turno. Tokarski destacou que esse apoio foi fundamental para consolidar a base de eleitores que rejeitava o então candidato Jair Bolsonaro.
Esses dois episódios – o apoio de Jair Bolsonaro ao filho e o apoio de Lula a Haddad – ilustram como determinadas lideranças conseguem mobilizar grandes parcelas do eleitorado, mas ressaltam que esse fenômeno não é comum a todos os políticos.
Para os estrategistas de campanha, a lição principal é que a rejeição pode ser tão poderosa quanto a aprovação. Quando um candidato tem uma taxa de rejeição significativamente maior, ele pode perder eleitores que antes buscavam alternativas, convergindo-os ao seu oponente.
Assim, a campanha de Lula precisa focar não apenas em consolidar sua base, mas também em mitigar a percepção de rejeição, enquanto Flávio Bolsonaro deve explorar a insatisfação do eleitorado para ampliar seu número de votos.
Em síntese, a análise de Tokarski indica que o apoio de ex-adversários tem um papel relevante, mas não decisivo, na migração de votos. O fator preponderante permanece sendo a diferença de rejeição entre os candidatos, que pode redefinir o panorama eleitoral nos próximos dias.








