Na última sexta‑feira (11), a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou a apreensão de todos os lotes de produtos à base de berberina que estavam sendo vendidos sem registro, notificação ou cadastro na agência, impedindo sua fabricação, importação, distribuição, divulgação e comercialização em todo o território nacional.
Entendimento da Anvisa sobre a berberina e outros produtos
A berberina, um composto extraído de plantas como Hydrastis canadensis e espécies do gênero Berberis, tem sido promovida nas redes sociais como “Ozempic natural”. Essa rotulagem enganosa motivou a ação regulatória, pois o produto não possui aprovação para uso como tratamento de diabetes ou controle de peso.
Além da berberina, a resolução da Anvisa também apontou irregularidades em outros itens, como o suplemento Soll*Q‑75, comercializado como parte da Medicina Tradicional Chinesa, e o medicamento cloridrato de dobutamina da empresa Hypofarma, que apresentou desvio de qualidade nas ampolas.
A agência ainda suspendeu a propaganda de produtos manipulados divulgados nos sites da Pharmes, Lupatini e Pinheiro Instituto de Manipulação Ltda., reforçando a necessidade de fiscalização rigorosa sobre alegações terapêuticas não comprovadas.
Evidências científicas e controvérsias sobre a berberina
Estudos publicados em revistas internacionais sugerem que a berberina pode influenciar parâmetros metabólicos como glicemia e colesterol, mas a evidência sobre perda de peso ainda é limitada e baseada em ensaios preliminares ou em modelos animais.
Melinda Ring, especialista em medicina integrativa da Northwestern Medicine, reconhece que há bases para investigar a substância, porém considera o entusiasmo nas redes sociais exagerado. “A berberina não é uma versão natural do Ozempic”, enfatiza.
Craig Hopp, vice‑diretor de um centro de saúde integrativa dos EUA, corrobora que, embora existam indícios de efeito sobre o peso, faltam ensaios clínicos robustos em humanos que comprovem eficácia comparável aos agonistas do receptor GLP‑1, como a semaglutida presente no Ozempic.
O New York Times destaca que a maioria das pesquisas disponíveis ainda não permite conclusões definitivas, e que a popularização da berberina como solução de emagrecimento carece de respaldo científico sólido.
Riscos, interações e recomendações ao consumidor
A berberina pode interferir na farmacocinética de diversos medicamentos, alterando suas concentrações plasmáticas. Uma das combinações mais preocupantes é com a metformina, utilizada no tratamento do diabetes tipo 2, pois pode potencializar o efeito hipoglicemiante e aumentar o risco de hipoglicemia.
Yufang Lin, da Cleveland Clinic, alerta que a percepção de que algo “natural” é automaticamente seguro pode levar pacientes a subestimar efeitos adversos e interações medicamentosas graves.
- Interação com antidiabéticos (ex.: metformina) – risco de hipoglicemia.
- Potencial aumento da toxicidade de anticoagulantes.
- Possível redução da eficácia de imunossupressores.
- Reações gastrointestinais como náuseas, diarreia e cólicas.
Os especialistas recomendam que pacientes consultem profissionais de saúde antes de iniciar o uso de suplementos contendo berberina, especialmente se já fizerem uso de medicamentos prescritos.
Além disso, a Anvisa reforça que a comercialização de produtos sem registro coloca o consumidor em risco, pois a qualidade, a dosagem e a pureza não são garantidas. A agência continuará monitorando o mercado e aplicando medidas corretivas sempre que necessário.
Para quem busca alternativas ao Ozempic, a orientação mais segura é procurar acompanhamento médico, avaliar opções aprovadas pela Anvisa e adotar mudanças de estilo de vida, como alimentação balanceada e prática regular de exercícios.
Em síntese, a proibição da berberina sem registro reflete a preocupação da autoridade sanitária com a segurança do público e a necessidade de evidências científicas robustas antes de promover alegações de saúde.
O caso também evidencia o papel das redes sociais na disseminação de informações não verificadas, ressaltando a importância de fontes confiáveis e de uma regulação eficaz para proteger a saúde da população.
Os consumidores devem ficar atentos a anúncios que prometem resultados milagrosos sem respaldo clínico, pois a ausência de registro pode indicar falta de controle de qualidade e risco de efeitos adversos inesperados.
Por fim, a Anvisa destaca que continuará a fiscalizar tanto suplementos quanto medicamentos, garantindo que apenas produtos com comprovação de segurança e eficácia estejam disponíveis no mercado brasileiro.








