Na manhã do último domingo de outubro de 2024, a campanha do ex-prefeito de Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), viu seu apoio despencar nas urnas, culminando em uma derrota inesperada no primeiro turno das eleições estaduais. O resultado foi registrado em dezenas de municípios fluminenses, destacando a capital e a Baixada Fluminense como os principais cenários de perda.
Cenário da derrota
Os números oficiais mostraram que Paes recebeu 1.730.683 votos, 131.173 a menos do que obteve na última disputa municipal em 2020. Essa queda representou cerca de 7% da sua votação anterior, sinalizando um abalo significativo na base de apoio.
Comparado ao desempenho de 2020, onde o candidato alcançou quase 1,9 milhão de votos, a diferença evidencia uma erosão de apoio em áreas antes consideradas seguras. A capital foi o epicentro da perda, com a Zona Sudoeste apresentando a maior queda.
Além da capital, a Baixada Fluminense também surpreendeu ao registrar um afastamento considerável dos eleitores, favorecendo o candidato Douglas Ruas (PL), que acabou vencendo no primeiro turno.
Influência do crime organizado
Um dos fatores apontados pelos analistas da campanha foi o domínio do crime organizado em diversas regiões do estado. Segundo aliados de Paes, milícias e facções criminosas exerceram coação sobre eleitores, distorcendo a votação em áreas tradicionalmente favoráveis ao candidato.
Para mitigar esse risco, a Justiça Eleitoral alterou 72 locais de votação em vinte cidades, buscando garantir a segurança e a integridade do processo. Mesmo assim, especialistas acreditam que a pressão clandestina pode ter impactado o resultado final.
Os estrategistas da campanha enfatizam que a compra de votos e a intimidação foram particularmente intensas nas áreas onde as milícias têm forte presença, como a Zona Sudoeste. Essa prática teria reduzido a participação efetiva dos eleitores alinhados ao PSD.
- Coação de eleitores em locais controlados por milícias;
- Compra de votos em comunidades vulneráveis;
- Intimidação de lideranças locais que apoiavam Paus.
Esses elementos explicam, em parte, a divergência entre as pesquisas de intenção de voto, que mostravam vantagem para Paus, e o resultado real nas urnas.
Estratégias de campanha e escolhas equivocadas
A campanha também reconheceu falhas estratégicas que podem ter contribuído para a derrota. Uma delas foi a escolha da vice‑candidata, Jane Reis, membro de uma família política tradicional de Duque de Caxias. Embora o nome tenha trazido visibilidade, o efeito de mobilização esperado não se materializou.
Além disso, a decisão de anunciar publicamente a possibilidade de vitória no primeiro turno pode ter gerado complacência entre os eleitores. Alguns analistas acreditam que a mensagem de vitória antecipada desmobilizou parte da base, que passou a considerar a eleição como decidida.
Outros erros apontados incluem a falta de um plano de contingência para enfrentar a influência do crime organizado e a subestimação da força do candidato Douglas Ruas, que consolidou apoio em áreas-chave da Baixada.
- Escolha de vice‑candidata sem apelo massivo;
- Comunicação de vitória antecipada;
- Ausência de estratégia contra a coação de eleitores;
- Subestimação da concorrência de Douglas Ruas.
Essas decisões estratégicas, combinadas com o cenário de violência, criaram um ambiente desfavorável para a campanha de Paus.
Perspectivas e ações judiciais
Mesmo após a derrota, o PSD mantém esperança em torno da disputa no Rio de Janeiro. A direção nacional do partido acionou o Supremo Tribunal Federal (STF) para contestar a decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que declarou nulos os votos de Anthony Garotinho (Republicanos), decisão que beneficiou Douglas Ruas.
A ação foi distribuída ao ministro Cristiano Zanin, que ainda não proferiu sentença. Caso a decisão seja revertida, há possibilidade de reabertura de parte do pleito ou, ao menos, de influência nas próximas etapas eleitorais.
Enquanto isso, a campanha de Paus continua a analisar os dados de votação, buscando entender melhor as dinâmicas regionais e planejar possíveis recursos. A estratégia de longo prazo inclui reforçar a presença nas áreas afetadas pelo crime organizado e reconstruir a confiança junto ao eleitorado.
Em síntese, a derrota no primeiro turno revelou vulnerabilidades profundas na campanha de Eduardo Paus, desde a influência do crime organizado até escolhas estratégicas equivocadas. O futuro político do ex-prefeito dependerá da capacidade de reverter esses desafios e de uma possível decisão judicial que modifique o cenário atual.








