Em meio à campanha para a reeleição do governador do Amapá, Clécio Luís, e do senador Randolfe Rodrigues, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, recebeu a missão de mapear para o Supremo Tribunal Federal as chances de eleger senadores de direita que poderiam pressionar por impeachment de magistrados. A tarefa, desenvolvida nos últimos meses, ganhou destaque ao revelar que a bancada pró-impeachment pode chegar a 49 senadores em 2027, um número próximo ao quórum necessário para destituir um ministro do STF.
Contexto político e a missão de Alcolumbre
Alcolumbre, que já havia atuado como articulador de alianças no Amapá, foi escolhido por sua proximidade com Alexandre de Moraes e outros ministros para servir como termômetro da ameaça ao Judiciário. A nomeação ocorreu em um período de intensas disputas eleitorais, quando o Partido Liberal (PL) buscava consolidar sua presença no Congresso. O presidente do Senado, embora conhecido por sua experiência, não antecipou a explosão de candidaturas de direita que se consolidariam nos próximos pleitos.
A estratégia consistia em coletar dados sobre candidaturas, posicionamentos e recursos de campanha de políticos alinhados ao PL, ao Novo e a outras siglas que defendiam a “degola” dos magistrados. Essa coleta foi feita em conjunto com assessores do STF, que desejavam avaliar o risco de uma maioria parlamentar capaz de iniciar processos de impeachment. O trabalho, embora discreto, tornou‑se ponto de discussão entre os próprios ministros, que temiam a perda de independência do Poder Judiciário.
A estratégia de mapeamento das eleições
Para montar o mapa de risco, Alcolumbre e sua equipe analisaram três pilares fundamentais: a filiação partidária, o histórico de apoio a processos contra o STF e a capacidade de mobilização de eleitores. Cada candidato recebeu uma pontuação que indicava seu potencial de contribuir para a bancada pró-impeachment. O resultado preliminar apontou que, se as projeções de voto se mantiverem, 49 senadores poderão apoiar a destituição de um ministro a partir de 2027.
O levantamento também destacou nomes de destaque dentro do PL, como Bia Kicis (DF), Filipe Barros (PR), Carlos Jordy (RJ) e Gustavo Gayer (GO). Esses políticos, eleitos em 2022, já manifestaram publicamente a intenção de criar um freio ao STF, tornando‑se peças-chave na estratégia de pressão institucional.
- Bia Kicis – defensora de reformas no Judiciário
- Filipe Barros – crítico das decisões do STF sobre a pandemia
- Carlos Jordy – articulador de projetos de lei contra ministros
- Gustavo Gayer – líder de bancada em Goiás
Além dos nomes citados, a análise incluiu senadores de outras siglas que, embora não sejam do PL, têm histórico de apoio a medidas contra o Judiciário. Essa rede ampliou o número de possíveis aliados, elevando a bancada pró-impeachment a mais de 60% da composição total do Senado.
Impactos da bancada pró-impeachment
O aumento da bancada tem consequências diretas para a estabilidade institucional. Primeiro, ele reduz a margem de manobra dos ministros ao enfrentar pressões políticas para modificar decisões já consolidadas. Segundo, cria um ambiente de incerteza para investidores e para a sociedade civil, que passam a temer decisões judiciais voláteis.
Além disso, a presença de 49 senadores favoráveis ao impeachment coloca em risco a própria reeleição de Alcolumbre como presidente do Senado. Caso a bancada se consolide, ele pode ser visto como responsável por uma estratégia que falhou em impedir a maioria contrária ao STF, o que pode gerar oposição interna e dificultar sua permanência no cargo.
O cenário também afeta a dinâmica partidária. O PL, que inicialmente projetava controlar um quarto do Senado, acabou elegendo 19 senadores, mas ainda depende de alianças com o Novo e outros grupos para atingir a maioria necessária. Essa dependência aumenta a influência dos líderes de bancada que defendem o impeachment, reforçando a agenda de “freio” ao Judiciário.
Desdobramentos e perspectivas para 2027
Com a projeção de 49 senadores pró-impeachment, o STF tem adotado medidas preventivas, como a intensificação de diálogos com líderes parlamentares e a busca por apoio de magistrados de outras instâncias. O objetivo é criar uma rede de proteção institucional que dificulte a mobilização de uma maioria contrária.
Ao mesmo tempo, partidos opositores ao PL têm intensificado campanhas de conscientização sobre os riscos de um impeachment político, destacando a importância da independência judicial para a democracia. Essas campanhas incluem eventos públicos, produção de conteúdo digital e alianças com organizações da sociedade civil.
Para Alcolumbre, o futuro depende de sua capacidade de equilibrar a relação com o STF e, ao mesmo tempo, manter a coesão dentro do Senado. Ele pode optar por reforçar a cooperação com os ministros, oferecendo apoio institucional em troca de garantias de autonomia, ou tentar reconfigurar a bancada, afastando alguns aliados mais radicais.
Independentemente da escolha, o cenário político brasileiro entra em um momento de alta volatilidade, onde decisões estratégicas de poucos atores podem definir o rumo das instituições nos próximos anos. O mapa de risco elaborado por Alcolumbre será, portanto, um documento crucial para entender as forças em jogo e para orientar as estratégias de todos os envolvidos.








