O coletivo Pra Gira Girar lança, no dia 30 de outubro, seu primeiro álbum intitulado Pra gira girar – Uma celebração aos Tincoãs. A obra chega ao público através do selo Amor in Sound, consolidando um projeto que começou com dois singles lançados em 2025. O disco traz à luz o repertório do lendário grupo baiano Os Tincoãs, que marcou a música afro‑brasileira nas décadas de 1960 e 1970.
A trajetória do coletivo e a inspiração nos Tincoãs
Formado por músicos de diferentes gerações, o núcleo central do Pra Gira Girar conta com Álvaro Lancellotti, Alan de Deus, Michele Leal e Pedro Costa. O grupo surgiu em 2024, motivado pela vontade de resgatar artistas que, apesar da importância cultural, permanecem pouco conhecidos fora de círculos especializados. A escolha de homenagear Os Tincoãs se deu após um show que recebeu forte acolhimento do público, despertando a sensação de que a história desses músicos precisava ser revisitada.
Os Tincoãs nasceram em Cachoeira (BA) em 1960, e sua sonoridade mesclava ritmos africanos, cantos de matriz e elementos da religiosidade afro‑brasileira. Durante a década de 1970, o grupo alcançou o auge criativo, lançando álbuns que se tornaram referência para artistas que buscam uma conexão profunda com as raízes ancestrais. Essa herança foi a base para a concepção do novo álbum, que busca traduzir a energia ritualística dos cantos originais em arranjos contemporâneos.
Detalhes da produção e do repertório
A produção musical ficou a cargo de Mario Caldato, conhecido por seu trabalho com artistas de renome internacional, e contou com a coprodução do baixista Alexandre Kassin. A gravação foi realizada em estúdio de alta qualidade, permitindo a integração de instrumentos acústicos e eletrônicos sem perder a essência orgânica das composições originais. A capa, assinada por Ilana Paterman Brasil, traz uma ilustração que remete ao simbolismo da Jurema e dos orixás, reforçando a conexão espiritual da obra.
O álbum reúne doze faixas selecionadas entre as mais emblemáticas da fase áurea dos Tincoãs. Cada música foi reinterpretação cuidadosa, mantendo a melodia e a mensagem, enquanto incorpora novos timbres e harmonias. Entre as canções destacam‑se:
- A força da Jurema (1973)
- Cordeiro de Nanã (1977)
- Lamento às águas (1977)
- Na beira do mar (1973)
- Oxossi te chama (1975)
- Salmo (1975)
Além desses clássicos, o disco inclui outras composições menos conhecidas, proporcionando ao ouvinte uma imersão completa na obra dos Tincoãs. Cada faixa foi pensada para funcionar como um ritual sonoro, convidando o público a vivenciar a energia curativa presente nas letras e nos ritmos.
Participações e legado cultural
Além do quarteto principal, o projeto contou com a participação de músicos convidados que ampliaram a riqueza sonora do álbum. Alexandre Kassin, além de co‑produzir, trouxe seu baixo marcante; Anna Magalhães contribuiu com percussão, enquanto Diogo Gomes acrescentou linhas de trompete que dialogam com a melodia tradicional. Zé Manoel, ao piano e à voz, ofereceu camadas harmônicas que reforçam a atmosfera mística das canções.
Um destaque emotivo é a presença in memoriam do percussionista Zero Awá (1957‑2025), que gravou suas partes antes de falecer. Sua contribuição permanece como um tributo à sua trajetória e à importância dos músicos de percussão na cultura afro‑brasileira. A edição em LP, lançada simultaneamente, celebra o formato analógico, valorizando a experiência auditiva tátil que combina com a proposta ritualística do disco.
Alvaro Lancellotti, mentor do coletivo, explicou que o álbum surgiu como consequência natural de um show que buscava reverenciar Os Tincoãs. “Não tínhamos planejado gravar um disco, mas percebemos que a obra era riquíssima e que poucas pessoas tiveram a oportunidade de ver o grupo ao vivo. Queríamos trazer essa energia de volta ao público”, afirmou. Essa declaração evidencia o compromisso do coletivo em preservar e difundir a memória cultural de artistas que influenciaram gerações.
O lançamento promete impactar não apenas os fãs de música de raiz, mas também o público jovem que busca novas referências sonoras. A combinação de produção moderna com arranjos tradicionais cria um ponto de encontro entre o passado e o presente, reforçando a relevância dos Tincoãs no cenário musical atual. Críticos já elogiaram a capacidade do álbum de manter a autenticidade dos cantos enquanto oferece uma roupagem contemporânea.
Com a divulgação prevista em plataformas digitais, redes sociais e em vinil, o projeto almeja alcançar audiências globais, ampliando o reconhecimento da música afro‑brasileira. A iniciativa também abre espaço para futuras colaborações entre artistas de diferentes estilos, fortalecendo a rede de intercâmbio cultural no Brasil.








