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A onda da autodiagnose nas redes sociais: riscos da patologização cotidiana

Nos últimos anos, vídeos curtos em plataformas como TikTok e Instagram têm apresentado listas de comportamentos que supostamente indicam transtornos mentais. Esse fenômeno, que se intensificou a partir de 2022, tem levado milhares de usuários a se autodiagnosticarem sem orientação profissional, gerando confusão e ansiedade.

O que é a patologização da vida cotidiana?

A patologização consiste em transformar experiências humanas normais em sintomas de doenças mentais. Pesquisadores chamam esse processo de “patologização da vida” porque ele reduz a complexidade do sofrimento a meros rótulos diagnósticos. Assim, emoções como cansaço, distração ou procrastinação passam a ser rotuladas como TDAH, ansiedade ou autismo.

O psiquiatra Rossano Cabral Lima, da UERJ, alerta que o diagnóstico pode se tornar a explicação padrão para qualquer desconforto. Ele afirma que, embora seja importante reconhecer o mal‑estar, é preciso manter uma postura crítica ao atribuir rapidamente um rótulo psiquiátrico.

Como os vídeos influenciam a autodiagnose?

Os criadores de conteúdo costumam usar formatos de lista, como “5 sinais de que você pode ter borderline” ou “10 hábitos que indicam TDAH”. Cada item costuma ser apresentado em frases curtas, facilitando a identificação rápida por parte do espectador. Essa estrutura cria um efeito de pertencimento instantâneo.

  • Apresentam comportamentos cotidianos como sintomas exclusivos.
  • Utilizam linguagem simples e direta.
  • Oferecem respostas imediatas ao sentimento de “por que eu sou assim?”.

Um estudo publicado em 2025 no Journal of Autism and Developmental Disorders analisou 150 vídeos sobre autismo adulto no TikTok. Dos 116 que descreviam traços, 76 associavam comportamentos comuns – como sentir cansaço após interações sociais – ao transtorno, demonstrando a amplitude da patologização.

Consequências da “psiquiatria de checklist”

Quando o diagnóstico se resume a marcar um número mínimo de sintomas, perde‑se a contextualização individual. Pessoas com histórias de vida distintas recebem o mesmo rótulo, enquanto fatores ambientais, culturais e sociais ficam em segundo plano. Isso gera um atendimento superficial e, muitas vezes, desnecessário.

Além disso, a autodiagnose pode levar a uma busca excessiva por tratamentos ou produtos relacionados ao suposto transtorno. O psicólogo Horácio Goes Amici, da USP, identificou que vídeos populares costumam servir como porta de entrada para cursos, livros e terapias pagas, ampliando o ciclo de consumo.

Em sua dissertação de mestrado, Amici analisou 31 vídeos com mais de 700 mil curtidas e examinou 90 comentários. Ele constatou que grande parte dos usuários já chega ao profissional convencida de que possui o diagnóstico apresentado no vídeo, buscando apenas a validação.

O papel dos profissionais de saúde e da educação digital

Para evitar a disseminação de informações equivocadas, especialistas defendem a necessidade de alfabetização midiática. Isso inclui ensinar a identificar fontes confiáveis, reconhecer a diferença entre informação e conselho e compreender que sintomas devem ser avaliados em contexto clínico.

A psicóloga Flávia Albuquerque, autora de “Despatologiza”, ressalta que o apelo desses vídeos está na promessa de autoconhecimento rápido. Em poucos minutos, o espectador recebe uma resposta pronta para a pergunta “por que eu sou assim?”, o que pode ser sedutor, mas perigoso.

Profissionais de saúde mental são encorajados a participar ativamente das redes, oferecendo conteúdo baseado em evidências e esclarecendo mitos. Quando a comunidade médica se faz presente, há maior chance de equilibrar o discurso e reduzir a tendência à autodiagnose precipitada.

Estratégias para quem busca entender seu próprio bem‑estar

Se você sente que algum comportamento descrito nos vídeos pode ser relevante, siga estas etapas antes de buscar um diagnóstico:

  1. Registre seus sintomas ao longo de semanas, observando frequência e intensidade.
  2. Considere fatores externos como estresse no trabalho, sono inadequado ou mudanças de rotina.
  3. Converse com alguém de confiança sobre suas percepções.
  4. Procure um profissional qualificado para uma avaliação completa.

Lembre‑se de que a presença de um ou dois sintomas não é suficiente para confirmar um transtorno. O diagnóstico requer uma análise aprofundada, que inclui histórico pessoal, familiar e avaliações padronizadas.

Em resumo, a popularização de listas de sintomas nas redes sociais tem contribuído para a autodiagnose desenfreada. Embora a intenção de oferecer apoio seja louvável, a falta de rigor científico pode gerar mais ansiedade do que alívio. A chave está em equilibrar a curiosidade natural do público com orientação profissional responsável.

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