O ex‑paraquedista britânico Karl Bushby está a poucos quilômetros de concluir a jornada que começou em 1998, quando partiu do Chile rumo à sua cidade natal, Hull, na Inglaterra. Após quase três décadas de marcha ininterrupta, ele caminha agora por Havré, na Bélgica, a caminho de Mons, onde pretende atravessar o Canal da Mancha a nado em outubro.
O início da jornada
Em novembro de 1998, aos 29 anos, Karl decidiu abandonar qualquer meio de transporte motorizado e iniciar uma caminhada que o levaria de volta ao Reino Unido. Ele estabeleceu duas regras claras: nunca usar veículos para avançar e não retornar ao país até completar todo o percurso.
Com uma mochila improvisada e um carrinho de madeira que ele mesmo construiu na Nicarágua, apelidado de “A Fera”, Bushby saiu do Chile e começou a cruzar a América do Sul. Seu objetivo era chegar à costa do Pacífico, atravessar o estreito de Bering e seguir rumo à Europa.
Nos primeiros meses, ele atravessou a Argentina, o Peru, o Equador e a Colômbia, enfrentando altitudes elevadas e climas extremos. Cada passo era registrado em centenas de e‑mails trocados com jornalistas que acompanhavam a aventura à distância.
Desafios ao longo do caminho
Ao longo dos 28 anos, a caminhada de Karl foi marcada por obstáculos que testaram sua resistência física e mental. Entre os principais desafios estão:
- Restrição de vistos em países como a Rússia e a China, que obrigaram paradas prolongadas.
- A crise financeira de 2008, que fez com que patrocinadores retirassem apoio e ele tivesse que improvisar equipamentos.
- A pandemia de COVID‑19, que limitou fronteiras e dificultou a continuação da marcha.
- Questões geopolíticas que geraram riscos de segurança, especialmente nas áreas de fronteira da América Central.
Um dos episódios mais emblemáticos foi a travessia do estreito de Bering em 2006, quando Karl e o aventureiro francês Dimitri Kieffer cruzaram o gelo congelado a pé, carregando suprimentos essenciais para entrar na Rússia.
Ele também nadou trechos do mar Cáspio, totalizando cerca de 300 quilômetros, para alcançar o Azerbaijão a partir do Turcomenistão. Essa travessia exigiu preparação meticulosa e resistência ao frio extremo.
Ao passar pelo Tapón del Darién, a densa selva que liga Colômbia e Panamá, Karl precisou se disfarçar de pessoa em situação de rua para evitar a atenção de grupos armados. Ele descreveu a experiência como “ser praticamente invisível” para sobreviver naquela região perigosa.
A etapa final rumo à Europa
Chegando à Bélgica, Karl agora caminha por trechos de oito quilômetros que o levarão a Mons, onde planeja iniciar a travessia do Canal da Mancha a nado. Ele veste shorts e uma camiseta remendada, com a barba grisalha sinalizando a passagem dos anos.
Durante a caminhada, ele empurra “A Fera”, que carrega equipamentos de acampamento, água e alimentos. Em uma loja de conveniência, ele compra uma garrafa de água que prende ao carrinho com uma corda elástica, mostrando sua capacidade de improvisação.
O clima na região está em torno de 30 °C, mas Karl não demonstra sinais de cansaço, mesmo após percorrer 16 quilômetros antes do almoço. Ele comenta que a maior motivação vem da proximidade do objetivo final.
Entrevistas recentes revelam que, após ter seu pedido de acesso ao túnel de serviço do Eurotúnel rejeitado, ele optou por atravessar o canal a nado, reforçando a determinação de concluir a jornada sem depender de transportes motorizados.
Ao refletir sobre a caminhada, Karl menciona que a experiência o transformou profundamente, permitindo-lhe compreender a natureza humana e a importância da persistência. Ele afirma que cada passo representa um aprendizado sobre resiliência e adaptação.
Com mais de 48 mil quilômetros percorridos, a história de Karl Bushby serve como inspiração para aventureiros e leitores que buscam superar limites. Seu percurso demonstra que, com disciplina e criatividade, é possível transformar um sonho audacioso em realidade, mesmo diante das adversidades mais inesperadas.








