Um levantamento nacional divulgado em outubro de 2024 revelou que quase metade dos médicos que atuam em unidades de terapia intensiva (UTI) no Brasil apresenta risco elevado de burnout. O estudo, realizado entre março e outubro de 2024, abrangeu hospitais públicos e privados de 26 estados e do Distrito Federal. Os resultados apontam para um cenário preocupante de esgotamento emocional e baixa realização profissional entre os intensivistas.
Panorama do burnout nas UTIs brasileiras
A pesquisa, intitulada Inquérito Nacional sobre a Força de Trabalho Médica das UTIs Brasileiras, contou com a participação de 2.338 médicos com pelo menos um ano de atuação contínua em UTI. Os dados mostram que 48,5% dos respondentes apresentam esgotamento emocional elevado, enquanto 16% apresentam nível agudo de despersonalização. Além disso, 46,4% relatam baixa sensação de realização profissional.
Ao analisar as três dimensões clássicas do burnout – exaustão emocional, despersonalização e realização profissional – o estudo constatou que 68,9% dos intensivistas apresentaram alteração em pelo menos uma delas. Essa prevalência indica que o problema não está restrito a um grupo pequeno, mas afeta a maioria dos profissionais da área. A pesquisa também incluiu um questionário de satisfação com a vida, revelando que 54,2% dos médicos se consideram satisfeitos.
O instrumento utilizado para medir o burnout foi o Maslach Burnout Inventory (MBI), reconhecido como padrão‑ouro para avaliação da síndrome. Embora não seja um diagnóstico clínico, o MBI permite identificar níveis de risco e orientar intervenções. As respostas foram coletadas por meio de questionários online, garantindo anonimato e abrangência geográfica.
Fatores que alimentam o esgotamento
Vários elementos estruturais do ambiente de trabalho intensivo contribuem para o desenvolvimento do burnout. A carga horária extensa, com plantões prolongados e múltiplos vínculos empregatícios, eleva o nível de fadiga física e mental. A exposição constante a situações de dor, sofrimento e morte aumenta o estresse emocional dos profissionais.
- Plantões de 24 ou 48 horas seguidas;
- Trabalho em dois ou mais hospitais simultaneamente;
- Pressão por decisões rápidas e assertivas em situações críticas;
- Falta de tempo para recuperação entre turnos.
Essas condições criam um ciclo de sobrecarga que dificulta a manutenção de empatia e de uma postura humanizada no cuidado ao paciente. Quando o médico sente que não tem recursos suficientes para atender às demandas, a sensação de impotência se intensifica, alimentando a despersonalização.
Grupos de profissionais e diferenças de risco
Para entender como a formação e a especialização influenciam o risco de burnout, os pesquisadores dividiram os participantes em três grupos distintos. O primeiro grupo inclui médicos com registro de qualificação de especialista (RQE) em medicina intensiva. O segundo agrupa profissionais com especialidades correlatas, como clínica médica, cirurgia geral, pediatria, cardiologia, nefrologia, anestesiologia e pneumologia, que atuam em UTIs. O terceiro compreende médicos sem registro específico ou com RQE em áreas não relacionadas à terapia intensiva, mas que exercem funções na UTI.
- Intensivistas certificados (RQE em medicina intensiva);
- Especialistas de áreas correlatas que trabalham em UTI;
- Profissionais sem qualificação específica para terapia intensiva.
Os resultados indicam que a educação continuada e a titulação acadêmica funcionam como fatores de proteção. Médicos com treinamento específico apresentaram risco 20% menor de burnout quando mantinham hábitos de sono saudáveis. Aqueles que relataram satisfação com a vida apresentaram risco 25% menor de desenvolver a síndrome.
Hábitos de vida e bem‑estar como escudos contra o burnout
Além das condições de trabalho, hábitos pessoais desempenham papel relevante na prevenção do esgotamento. Atividade física regular, convívio social, lazer e alimentação equilibrada foram associados a maior satisfação com a vida e menor risco de burnout. O estudo mostrou que profissionais que dormem de 7 a 8 horas por noite têm probabilidade significativamente menor de apresentar sintomas graves.
- Prática de exercícios físicos ao menos três vezes por semana;
- Alimentação rica em nutrientes e hidratação adequada;
- Tempo dedicado a atividades de lazer e hobbies;
- Manutenção de uma rede de apoio social e familiar.
Essas práticas não eliminam o estresse inerente ao trabalho em UTI, mas ajudam a construir resiliência emocional e física. Quando o médico cuida de sua saúde fora do hospital, ele se torna mais capaz de lidar com situações críticas sem comprometer sua saúde mental.
Caminhos para a prevenção e o bem‑estar institucional
Especialistas apontam que a solução não pode ficar apenas nas mãos dos profissionais; as instituições de saúde precisam adotar políticas que favoreçam a qualidade de vida no trabalho. Limitar a jornada de plantão a no máximo 24 horas consecutivas e garantir períodos de descanso adequados são medidas essenciais. Além disso, programas de apoio psicológico e de desenvolvimento de competências emocionais devem ser incorporados rotineiramente.
- Implementação de escalas que evitem turnos superiores a 72 horas seguidas;
- Disponibilização de serviços de psicologia ocupacional nas unidades;
- Criação de espaços de descanso e salas de relaxamento para os profissionais;
- Investimento em treinamento de comunicação empática e manejo de estresse.
O presidente da Amib, Ederlon Rezende, enfatiza que a alta satisfação com a vida reduz significativamente o risco de burnout, destacando que a responsabilidade vai além da resiliência individual. Ele alerta que a cultura de “trabalhar até cair” ainda persiste em muitas instituições, comprometendo a saúde dos médicos.
Para que a mudança seja efetiva, é fundamental que gestores e lideranças reconheçam o impacto econômico e clínico do burnout. Profissionais esgotados apresentam maior taxa de erro, menor produtividade e maior rotatividade, o que eleva os custos operacionais dos hospitais. Investir em bem‑estar, portanto, é também uma estratégia de melhoria da qualidade assistencial.
Em síntese, o estudo traz à luz a necessidade urgente de repensar as condições de trabalho nas UTIs brasileiras. A combinação de carga horária equilibrada, apoio institucional e promoção de hábitos saudáveis pode transformar o cenário atual. Apenas com ações coordenadas será possível garantir que os intensivistas continuem oferecendo cuidado de excelência sem sacrificar sua saúde mental.








