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Documentário expõe uso de inteligência artificial por Israel em ataques a Gaza

Um novo documentário apresentado na Mostra de Veneza, nesta quinta‑feira, 10 de setembro, trouxe à luz detalhes inéditos sobre a forma como Israel teria utilizado sistemas de inteligência artificial para coordenar bombardeios em Gaza. O filme, intitulado NAZA, reúne depoimentos de militares e agentes de inteligência que revelam procedimentos tecnológicos empregados nos últimos meses de conflito. A obra promete mudar a percepção internacional sobre o apoio ao governo israelense.

Investigação e depoimentos dos militares

Os jornalistas Yuval Abraham e Rachel Szor, premiados com o Oscar por “Sem Chão”, conduziram entrevistas confidenciais com 24 integrantes das forças armadas e dos serviços de inteligência israelenses. As conversas aconteceram em terraços de Tel Aviv, à noite, e foram gravadas sob anonimato para proteger as identidades dos entrevistados.

Abraham explicou à AFP que o objetivo era “ouvir, com o máximo de detalhes possíveis, como eram os sistemas para matar em Gaza, como funcionavam”. Cada participante descreveu rotinas operacionais que, segundo eles, eram rotineiras nos últimos meses de guerra.

Segundo os depoentes, a decisão de falar foi motivada por um sentimento de culpa e pela esperança de que a exposição dos fatos pudesse gerar pressão internacional. Muitos relataram que, apesar do risco, sentiram que a verdade precisava ser contada.

Os entrevistados destacaram que a maioria das informações foi obtida a partir de documentos internos, registros de telecomunicações e softwares de vigilância desenvolvidos especificamente para o conflito. Eles afirmaram que o ambiente de trabalho dentro das unidades de inteligência era altamente fechado, mas que a confiança construída ao longo de anos de investigação permitiu que os militares se sentissem seguros para falar.

Um dos militares, que preferiu permanecer anônimo, descreveu a sensação de “ver a própria mão na morte de civis inocentes”. Ele ressaltou que a tecnologia, embora avançada, foi usada como ferramenta de controle e eliminação de alvos.

Como a IA foi empregada nos bombardeios

O documentário detalha um processo em três etapas, que combina vigilância massiva, análise de dados e execução de ataques. Cada fase depende de algoritmos de aprendizado de máquina capazes de identificar padrões de comportamento em tempo real.

  1. Vigilância e coleta de dados: sensores de telecomunicações espalhados por Gaza capturavam chamadas, mensagens e localização de dispositivos móveis. O controle israelense da rede permitia o acesso direto a esses fluxos de informação.
  2. Análise algorítmica: softwares de IA processavam os dados coletados, cruzando informações de voz, texto e localização para gerar perfis de possíveis alvos. Os algoritmos eram treinados para reconhecer movimentos suspeitos, como deslocamentos de grupos familiares ou presença de crianças.
  3. Decisão e execução: com base nos perfis gerados, os oficiais autorizavam ataques aéreos ou de artilharia. Os alvos eram marcados em sistemas de comando e controle, que enviavam coordenadas às unidades de ataque.

Os militares afirmam que, para cada alvo identificado, o algoritmo calculava o número provável de vítimas colaterais, muitas vezes estimando centenas de mortes civis. Essa estimativa era usada para justificar a “necessidade militar” do ataque.

Além do uso de IA para seleção de alvos, o documentário revela que os israelenses empregaram um programa de espionagem capaz de “abrir” telefones de moradores de edifícios específicos. O software permitia escutar conversas nos momentos finais antes de um bombardeio, conforme relatado por Szor.

Os entrevistados descrevem ainda a criação de um “eufemismo” interno, chamado NAZA, que indica o número de civis que provavelmente morrerão em cada operação. Esse termo seria usado nos relatórios internos para mascarar a gravidade dos danos colaterais.

Os especialistas que analisaram o filme apontam que a combinação de vigilância em massa e algoritmos de decisão automática cria um ciclo perigoso, onde a tecnologia amplifica a capacidade de infligir danos em escala civil.

Repercussões e expectativas do filme

NAZA é o único documentário em competição pelo Leão de Ouro na edição de 2024 da Mostra de Veneza. Os realizadores esperam que a exibição pressione governos ocidentais a reconsiderarem o apoio diplomático e militar a Israel.

Abraham afirmou que “estão enfraquecendo as pessoas aqui dentro, que apoiam os direitos humanos e uma solução política, ao se recusarem a agir”. Ele acredita que a revelação dos métodos tecnológicos pode gerar sanções internacionais.

O filme também destaca o impacto psicológico sobre os próprios soldados, que relataram sentimentos de culpa e trauma ao participar de operações que resultaram em mortes civis massivas. Muitos descrevem um “ciclo de desumanização” alimentado pela distância tecnológica entre o operador e a vítima.

Além disso, o documentário traz à tona o debate sobre a responsabilidade legal de desenvolvedores de IA e empresas de tecnologia que fornecem ferramentas de vigilância. Organizações de direitos humanos já solicitaram investigações sobre possíveis violações do direito internacional humanitário.

Na última edição da Mostra, o curta “A voz de Hind Rajab” comoveu o público ao retratar a morte de uma criança palestina. NAZA segue essa linha de denúncia, mas com foco nas camadas superiores de planejamento e execução militar.

Os críticos apontam que a obra pode enfrentar resistência de governos que consideram o conteúdo sensível ou que temem repercussões diplomáticas. Ainda assim, a equipe de produção mantém a esperança de que a verdade alcance um público amplo.

Especialistas em segurança cibernética ressaltam que o caso de Gaza pode servir de alerta para outros conflitos, onde a IA pode ser usada para acelerar a tomada de decisões letais. Eles recomendam a criação de normas internacionais que regulem o uso de algoritmos em contextos de guerra.

O Ministério da Saúde de Gaza, que registra mais de 73.500 mortes e 174.500 feridos desde outubro de 2023, tem sido citado como fonte confiável pela ONU. Esses números reforçam a gravidade das alegações feitas no documentário.

O conflito, desencadeado após o ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 contra Israel, resultou em mais de 1.200 mortos israelenses, a maioria civis, e 251 reféns levados para Gaza. O ciclo de violência continua, alimentado por tecnologias avançadas e narrativas conflitantes.

Ao final da exibição, os realizadores convidam o público a refletir sobre a ética do uso de IA em situações de conflito armado e a exigir transparência das autoridades militares. Eles acreditam que a conscientização pode ser um primeiro passo para mudanças concretas.

Com mais de duas décadas de experiência em jornalismo investigativo, Abraham e Szor reforçam seu compromisso com a verdade, mesmo diante de riscos pessoais. O Oscar conquistado por “Sem Chão” demonstra a capacidade do cinema de revelar abusos e mobilizar a opinião pública.

O filme NAZA, ao combinar relatos de insiders, análise tecnológica e contextualização histórica, oferece uma visão aprofundada sobre como a inteligência artificial pode ser transformada em arma de destruição em massa. A obra está programada para exibição em diversos festivais internacionais ao longo dos próximos meses.

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