O governo dos Estados Unidos iniciou, em 2024, uma operação para localizar migrantes deportados que devem multas acumuladas, totalizando cerca de R$ 2,15 bilhões. A iniciativa, coordenada pela Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP), visa recuperar valores que, segundo a agência, foram deixados em aberto por mais de 66 mil pessoas. O foco recai sobre cidadãos do México, Honduras e Guatemala que foram enviados de volta ao seu país de origem nos últimos anos.
Contexto legal e histórico das multas
A base jurídica para a cobrança remonta à Lei de Imigração de 1996, que autoriza penalidades diárias contra quem permanece nos EUA após receber ordem de deportação. Durante a administração de Joe Biden, em 2021, a prática foi suspensa sob a alegação de ineficiência e alto custo operacional. Com a volta de Donald Trump à Casa Branca, a política foi restabelecida e ampliada, chegando a impor multas de até quase mil dólares por dia.
Essas sanções são calculadas a partir de dias de permanência irregular, acrescidos de juros e outras taxas previstas no regulamento. O objetivo oficial, segundo autoridades, é desestimular a permanência ilegal e gerar recursos para outras áreas da fiscalização migratória. Contudo, críticos apontam que a medida pode sobrecarregar ainda mais migrantes vulneráveis, que já enfrentam dificuldades financeiras significativas.
Contratação de empresas privadas para a recuperação
Para viabilizar a arrecadação, a CBP firmou, no último mês, quatro contratos de até US$ 9 milhões cada com empresas especializadas em cobrança de dívidas. Os convênios foram assinados com Global Recovery Group, The Baptiste Group, Caduceus Inc. e Response AI Solutions, todas com experiência em rastreamento de devedores em escala internacional.
Essas companhias terão acesso a um conjunto amplo de fontes de informação, incluindo registros de emprego, documentos judiciais, contas de serviços públicos e até fotografias de residências. O uso desses dados permite avaliar a capacidade de pagamento dos migrantes e traçar estratégias de cobrança mais efetivas. A estratégia inclui, ainda, a possibilidade de encaminhar processos judiciais nos países de origem dos devedores.
- Global Recovery Group
- The Baptiste Group
- Caduceus Inc.
- Response AI Solutions
Embora os contratos representem um investimento significativo, a expectativa da CBP é que a recuperação das multas supere os custos operacionais, gerando um retorno positivo ao erário americano. A agência ainda não divulgou projeções detalhadas sobre o prazo de pagamento ou a taxa de sucesso esperada. A falta de transparência sobre esses aspectos tem gerado dúvidas entre analistas e organizações de direitos humanos.
Desafios operacionais e questões internacionais
Um dos maiores obstáculos é a efetiva imposição de sanções a indivíduos que já deixaram o território dos EUA. As autoridades americanas ainda não esclareceram como pretendem forçar o pagamento, especialmente em países onde a cooperação jurídica pode ser limitada. A legislação local de México, Honduras e Guatemala pode não reconhecer ou executar as multas emitidas pelos EUA.
Além disso, o uso de informações pessoais sensíveis levanta preocupações sobre privacidade e possíveis abusos. Organizações de direitos civis alertam que a coleta de dados como fotografias de residências pode violar normas internacionais de proteção de dados. A falta de um marco regulatório claro para a cooperação transnacional agrava esses temores.
Outro ponto crítico é a reação dos governos latino-americanos. Até o momento, nenhum dos três países mencionados confirmou apoio ou participação na execução das multas. A possibilidade de tensões diplomáticas aumenta caso as autoridades norte‑americanas busquem medidas coercitivas sem acordos bilaterais prévios.
Especialistas em migração sugerem que a iniciativa pode gerar efeitos colaterais indesejados, como o aumento da desconfiança entre migrantes e autoridades, dificultando futuros processos de regularização. A percepção de que o retorno ao país de origem pode acarretar novas dívidas pode desencorajar a colaboração com programas de repatriação voluntária.
Impacto econômico e social das multas
Do ponto de vista econômico, a cobrança de US$ 423 milhões (cerca de R$ 2,15 bilhões) representa uma parcela pequena do orçamento federal, mas pode servir como precedente para futuras políticas de arrecadação de dívidas migratórias. O dinheiro recuperado poderia ser direcionado a programas de segurança fronteiriça, infraestrutura ou assistência social, conforme a prioridade do governo.
No âmbito social, a pressão financeira sobre famílias que já enfrentam desafios de reintegração pode aprofundar a vulnerabilidade. Muitos dos migrantes deportados são chefes de família, e a imposição de multas elevadas pode comprometer a subsistência de seus entes queridos. Organizações de ajuda humanitária temido que a medida aumente o risco de exploração e trabalho informal.
Por outro lado, defensores da política argumentam que a responsabilização financeira pode desencorajar a tentativa de permanecer ilegalmente nos EUA, reduzindo fluxos migratórios irregulares a longo prazo. Eles apontam que a imposição de custos reais cria um desincentivo efetivo, complementando as medidas de controle de fronteira.
Em resumo, a operação de cobrança de multas a migrantes deportados se insere em um debate complexo que envolve legalidade, direitos humanos, cooperação internacional e eficiência econômica. Enquanto o governo dos EUA busca recuperar valores que considera devidos, a comunidade internacional observa atentamente os desdobramentos e as possíveis repercussões sobre a migração na América do Norte e Central.








