Na manhã de 3 de outubro de 2024, o presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, entregou sua renúncia após uma crise que envolveu o banco digital Ueno, que atende cerca de três milhões de clientes no país. A decisão foi anunciada em Assunção, capital paraguaia, e gerou forte pressão sobre o governo de Santiago Peña. O Ueno, maior emissor de cartões de crédito do Paraguai, viu seu índice de solvência despencar para menos da metade do mínimo exigido pelos reguladores.
Contexto da crise no Ueno Bank
O Ueno Bank passou de uma fintech de nicho a um banco de médio porte em poucos anos, impulsionado por investimentos do Grupo Vázquez. No entanto, auditorias recentes revelaram ajustes nos balanços que reduziram drasticamente a margem de capital próprio, colocando o banco em situação de risco. A queda do índice de solvência despertou a atenção da Superintendência de Bancos, que iniciou uma investigação aprofundada sobre a saúde financeira da instituição.
Além dos problemas de capital, o Ministério Público solicitou a abertura de investigação criminal e ordenou a prisão de oito pessoas ligadas ao Ueno. Entre as suspeitas está o financiamento indireto da venda de uma carteira de ativos de uma empresa vinculada ao Grupo Vázquez, operação que o banco nega ter realizado. Esses fatos aumentaram a desconfiança do mercado e dos investidores estrangeiros.
Repercussões políticas e econômicas
A crise no Ueno teve reflexos imediatos na reputação do Paraguai como destino de capital estrangeiro, sobretudo dos investidores brasileiros. As tensões políticas se intensificaram quando o presidente Santiago Peña pediu a renúncia de Carvallo, citando a necessidade de reduzir a controvérsia em torno do Banco Central. O próprio Carvallo admitiu que sua saída poderia permitir que a instituição e a Superintendência de Bancos trabalhassem sem pressões políticas.
Parlamentares já haviam exigido a demissão da cúpula do BC após a rejeição de um relatório sobre o Ueno por considerá-lo incompleto. A situação também afetou os mercados financeiros: os títulos em dólar do banco com vencimento em 2031 e a dívida soberana do Paraguai sofreram forte pressão de venda, refletindo o medo de um contágio sistêmico.
Medidas adotadas pelas autoridades
Para conter os danos, o Banco Central iniciou um procedimento de proteção aos depositantes, limitando possíveis impactos ao sistema financeiro nacional. O governo de Peña anunciou um acordo com líderes do Congresso para acelerar a votação de um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do país para garantir pagamentos aos clientes do Ueno.
Entre as ações previstas estão:
- Utilização do Fundo de Garantia para cobrir depósitos em risco;
- Nomeação de auditores independentes pela Superintendência de Bancos para avaliar os ativos do Ueno;
- Reforço da supervisão regulatória sobre instituições financeiras digitais.
O presidente também destacou que a medida deve assegurar a devolução de recursos públicos, incluindo valores mantidos pelo Instituto de Seguridade Social (IPS) e outros fundos de previdência. Segundo o BC, o caso do Ueno é isolado e não indica falhas estruturais no sistema financeiro paraguaio.
Perspectivas para o sistema financeiro paraguaio
Especialistas apontam que a crise pode servir de alerta para aprimorar a regulação de bancos digitais na América do Sul. A experiência do Ueno demonstra que o crescimento rápido de fintechs requer monitoramento rigoroso de capital e de operações de risco. O Banco Central reforçou seu compromisso de manter a estabilidade macroeconômica e evitar que episódios semelhantes se repitam.
Enquanto isso, clientes que compareceram às agências do Ueno encontraram as portas fechadas, incluindo aposentados que recebem benefícios governamentais por meio do banco. O governo prometeu que os pagamentos serão retomados assim que o Fundo de Garantia for liberado, mitigando o impacto social da crise.
Em suma, a renúncia de Carvallo marca um ponto de inflexão na política econômica do Paraguai. A combinação de investigação criminal, intervenção regulatória e apoio legislativo demonstra a determinação do país em restaurar a confiança dos investidores e proteger os direitos dos depositantes. O futuro do Ueno ainda é incerto, mas as lições aprendidas deverão influenciar a forma como o Paraguai lida com a inovação financeira nos próximos anos.








