Na terça‑feira, 3 de novembro de 2026, eleitores dos Estados Unidos vão decidir o futuro de 145 propostas que circulam em 39 estados. As medidas, que vão de um imposto sobre bilionários a regras de identificação do eleitor, serão aprovadas ou rejeitadas por voto direto, sem passar pelo crivo dos legisladores estaduais.
Como funcionam as medidas nas cédulas
Nos EUA, o termo genérico para essas votações é ballot measure. Cada estado adota uma nomenclatura própria: Califórnia e Arizona utilizam propositions, Ohio chama de issues, Maryland e Wisconsin de questions, enquanto o Colorado usa amendments quando a proposta altera a constituição estadual.
Não há referendos nacionais; todas as consultas são estaduais ou locais e o eleitor só pode escolher entre Sim ou Não. Essa simplicidade cria um cenário de decisão binária que pode mudar políticas públicas de forma abrupta.
- Propositions – Califórnia, Arizona
- Issues – Ohio
- Questions – Maryland, Wisconsin
- Amendments – Colorado
O processo costuma envolver a redação de um resumo oficial, a análise do Escritório do Analista Legislativo (LAO) e a divulgação de argumentos a favor e contra por grupos de interesse.
Propostas de destaque: imposto sobre bilionários e identidade do eleitor
A medida que mais chama atenção é a Prop. 40 da Califórnia, que pretende instituir o primeiro imposto estadual sobre patrimônio nos EUA. O texto estabelece uma alíquota única de 5 % sobre o patrimônio líquido de residentes que, em 1 de janeiro de 2026, possuíam mais de 1 bilhão de dólares, estimando cerca de 200 contribuintes.
O pagamento seria parcelado em cinco anos, e a arrecadação prevista gira em torno de 100 bilhões de dólares, destinados prioritariamente à saúde pública. O sindicato SEIU‑UHW, autor da proposta, argumenta que o recurso pode fechar lacunas de financiamento em hospitais e clínicas.
Entretanto, o LAO alerta que, apesar do ganho temporário de dezenas de bilhões, a medida pode provocar uma fuga de bilionários, reduzindo a base de arrecadação do imposto de renda em até 1 bilhão de dólares por ano.
O apoio político inclui o senador Bernie Sanders e o Partido Democrata californiano, mas a oposição vem de grandes corporações, do sindicato dos professores e da Planned Parenthood.
Dois contraprojetos, Props 41 e 42, foram apresentados pelo grupo Building a Better California, fundado por Sergey Brin e Eric Schmidt. Se qualquer uma das contrapropostas superar a Prop. 40, o imposto sobre bilionários será anulado.
No estado de Washington, a Initiative 645 busca revogar o imposto de 9,9 % sobre renda acima de 1 milhão de dólares, aprovado em 2024 e programado para entrar em vigor em 2028. A iniciativa também propõe a proibição de qualquer imposto de renda estadual ou municipal, reforçando a tradição de Washington como um dos poucos estados que não tributam a renda do trabalho.
Em relação à identidade do eleitor, seis estados submetem ao voto regras de identificação. Ohio, Carolina do Norte e Arizona já exigem documento com foto; as propostas visam elevar a exigência à Constituição estadual, dificultando futuras alterações.
Em Nevada, a exigência aprovada em 2024 retorna às urnas, pois emendas constitucionais de iniciativa popular precisam ser ratificadas em duas eleições consecutivas.
A Califórnia propõe, por meio da Prop. 39, a criação de uma carteira de eleitor gratuita e a obrigatoriedade de documento oficial com foto para voto presencial. Já o Colorado, com a Amendment 84, estende a exigência de foto ao voto postal.
Impactos políticos e econômicos das iniciativas
O conjunto de propostas reflete o clima político polarizado nos EUA. Parte das medidas eleitorais nasce das alegações de fraude feitas pelo ex‑presidente Donald Trump, embora tenham sido desmentidas por auditorias e decisões judiciais.
Outra faceta importante é a guerra de redistritamento iniciada em 2025, quando governos republicanos e democratas redesenharam distritos com o objetivo declarado de ganhar cadeiras na Câmara dos Representantes. As regras de identificação do eleitor podem, portanto, influenciar a participação de eleitores em áreas disputadas.
Do ponto de vista econômico, o imposto sobre bilionários pode gerar recursos significativos para programas sociais, mas também corre o risco de provocar migração de riqueza para estados vizinhos, reduzindo a base tributária local.
Já a revogação do imposto de renda em Washington pode tornar o estado ainda mais atrativo para profissionais de alta renda, mas ao mesmo tempo limita a capacidade de financiamento de serviços públicos.
Os grupos de interesse mobilizam campanhas intensas: organizações empresariais financiam anúncios contra a Prop. 40, enquanto movimentos progressistas utilizam redes sociais para divulgar os benefícios da arrecadação para saúde e educação.
O resultado das 145 propostas será monitorado de perto por analistas políticos, pois pode indicar tendências para as próximas eleições legislativas e presidenciais.
Independentemente do desfecho, os eleitores americanos demonstram, mais uma vez, que o poder de decisão direta sobre políticas públicas continua sendo uma ferramenta central da democracia estadunidense.








