Após a derrota de Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais de 2022, seus apoiadores passaram a inundar o perfil do ex‑presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com pedidos de ajuda. O fenômeno se intensificou nas semanas que se seguiram ao resultado, principalmente nas redes sociais Instagram e Facebook, onde a maioria das mensagens foi postada. O levantamento da Ativaweb DataLab, divulgado em dezembro de 2022, traz números que revelam a dimensão desse movimento.
Contexto da derrota e a reação nas redes
Flávio Bolsonaro, senador e filho do ex‑presidente Jair Bolsonaro, concorreu à presidência em 2022 e foi derrotado no segundo turno. A derrota gerou frustração entre seus militantes, que historicamente já haviam se mobilizado em protestos de rua e acampamentos militares. Agora, a estratégia mudou: o campo de batalha migrou para o ambiente digital, onde os apoiadores buscam captar a atenção de Trump, que ainda mantém forte influência entre a base conservadora global.
Segundo a Ativaweb DataLab, foram analisadas 3,28 milhões de menções sobre o assunto nas duas plataformas. Destas, 82% dos militantes dirigiram mensagens diretamente ao perfil de Donald Trump, solicitando intervenção ou apoio. Esse número evidencia a mudança de tática, substituindo as manifestações físicas por uma campanha de pressão online.
Perfil dos militantes e a estratégia digital
O estudo identificou que 76% dos perfis que enviaram mensagens ao ex‑presidente americano têm entre 55 e 65 anos ou mais, indicando que a maioria dos participantes são eleitores mais velhos, acostumados a protestar nas ruas e agora adaptados ao uso de smartphones e redes sociais. O restante está distribuído em faixas etárias variadas, mostrando que a mobilização transcende gerações.
Alek Maracajá, cientista de dados e CEO da Ativaweb DataLab, explicou que os bolsonaristas “trocouram os quartéis do Exército pelas redes sociais para protestar”. Ele comparou a prática de 2022, quando manifestantes ocupavam o entorno de quartéis, à prática de 2026, quando a mesma energia foi canalizada para comentários no perfil de Trump.
A estratégia digital inclui o uso de hashtags, menções diretas e mensagens padronizadas que circulam em grande volume. Essa padronização facilita a replicação das mensagens, ampliando o alcance e a visibilidade nas timelines dos seguidores de Trump.
Mensagens mais recorrentes e comparações internacionais
Um em cada três comentários pede que Trump “salve” o Brasil, sendo um terço desses pedidos redigidos em inglês, com a expressão “help Brazil”. As frases prontas mais comuns incluem:
- “Venha buscar o Lula”;
- “Lula disse que você não tem coragem de vir buscar ele”;
- “Trump, o Brasil precisa de você agora”;
- “Help Brazil, Trump!”.
Essas mensagens refletem um discurso que combina acusações de fraude eleitoral, críticas ao ministro da Justiça Cristiano Zanin e a referência ao caso do ditador venezuelano Nicolás Maduro, capturado por forças especiais dos EUA. Os internautas traçam paralelos entre a suposta captura de Maduro e a expectativa de que Trump interviria para “resgatar” o Brasil.
O argumento mais usado para questionar o resultado das urnas é a alegação de que o horário de votação foi prorrogado indevidamente, medida que, segundo os militantes, teria sido determinada pelo ministro Cristiano Zanin. Essa narrativa alimenta a crença de que a derrota foi fruto de manipulação, justificando a busca por apoio externo.
Implicações políticas e perspectivas futuras
O aumento das mensagens a Donald Trump revela uma nova forma de pressão política, em que grupos organizados utilizam influenciadores internacionais para validar suas reivindicações. Embora não haja evidência de que Trump esteja disposto a intervir, a campanha digital demonstra a persistência da base bolsonarista em buscar alternativas para contestar o resultado eleitoral.
Além disso, o estudo indica que a mobilização digital pode se transformar em ação offline, caso os militantes percebam que a pressão online gera respostas concretas. Historicamente, manifestações físicas foram acompanhadas por chamadas a intervenções militares; agora, a mesma lógica pode se aplicar a pressões diplomáticas ou midiáticas.
Especialistas alertam que a combinação de frustração eleitoral, narrativas de fraude e a fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos pode intensificar a polarização no país. O uso de plataformas como Instagram e Facebook como palco de protesto digital cria novos desafios para a regulação de conteúdo e para a manutenção da ordem democrática.
Em síntese, o levantamento da Ativaweb DataLab oferece um retrato detalhado de como a política brasileira está se adaptando ao ambiente digital, reforçando a ideia de que a batalha por poder e legitimidade agora acontece também nas timelines de figuras internacionais.








