Um estudo publicado na Nature Medicine nesta segunda‑feira (2) revelou que o número de óbitos por câncer de colo do útero pode subir 39,3% até 2050, alcançando cerca de 522 mil mortes por ano em todo o mundo. As projeções consideram dados de 204 países, inclusive do Brasil, e apontam um crescimento simultâneo de 20,2% nos novos casos, ultrapassando a marca de um milhão de diagnósticos anuais.
Projeções alarmantes até 2050
Os pesquisadores usaram informações do estudo Global Burden of Disease (GBD) para modelar a evolução da doença entre 1990 e 2023, e a partir daí estimaram o cenário futuro. Mesmo que as taxas de incidência e mortalidade ajustadas por idade apresentem leve queda, o aumento da população mundial e o envelhecimento demográfico elevam o número absoluto de casos e óbitos.
Para 2023, o câncer de colo do útero foi responsável por 19,8 novos casos e 7,8 mortes por 100 mil mulheres, após ajuste por idade. Em 2050, os números projetados chegam a 1,08 milhão de novos casos e 522 mil mortes anuais, representando aumentos de 20,2% e 39,3% respectivamente em relação a 2024.
Essas projeções são preocupantes porque o câncer de colo do útero é um dos tumores mais preveníveis, graças à vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e aos exames de rastreamento como o papanicolau. No entanto, a falta de acesso a essas ferramentas em regiões vulneráveis pode anular o potencial de prevenção.
Desigualdades no acesso à prevenção
O estudo destaca que os países de baixa renda enfrentam maiores dificuldades para garantir vacinação, exames preventivos e tratamento precoce de lesões pré‑cancerosas. Essa disparidade reflete-se diretamente nos números de mortalidade, que são desproporcionalmente elevados nessas regiões.
Entre os fatores que agravam a situação estão:
- Baixa cobertura vacinal contra o HPV, muitas vezes limitada a áreas urbanas.
- Escassez de laboratórios capazes de realizar testes de DNA‑HPV, que substituem o tradicional papanicolau em muitas diretrizes internacionais.
- Falta de programas de rastreamento sistemático, especialmente em áreas rurais.
- Barreiras econômicas que impedem o acesso ao tratamento de lesões de alto risco.
Essas barreiras criam um ciclo vicioso: menos diagnóstico precoce gera mais casos avançados, o que eleva a taxa de mortalidade e sobrecarrega sistemas de saúde já fragilizados.
Cenário brasileiro e desafios futuros
No Brasil, os autores do estudo estimaram que, em 2023, ocorreram aproximadamente 26,5 mil novos casos e 10,9 mil mortes por câncer de colo do útero. Esses números foram obtidos por modelos estatísticos internacionais e diferem das estimativas oficiais do Instituto Nacional de Câncer (INCA), que utilizam metodologias distintas.
Comparado a 1990, o risco de morte ajustado por idade diminuiu, indicando algum avanço nos programas de prevenção. Contudo, o total de óbitos aumentou devido ao crescimento populacional e ao envelhecimento da população feminina.
O levantamento aponta que nenhuma das sete grandes regiões analisadas – Ásia, África, América Latina, América do Norte, Europa, Oceania e Oriente Médio – atingirá a meta da Organização Mundial da Saúde (OMS) de eliminar o câncer de colo do útero como problema de saúde pública até 2050. A meta da OMS exige reduzir a incidência para menos de quatro casos por 100 mil mulheres ao ano.
Para reverter a tendência, especialistas recomendam:
- Expandir a vacinação universal contra o HPV, incluindo meninas e meninos, antes da iniciação sexual.
- Implementar programas de rastreamento baseados em DNA‑HPV, que apresentam maior sensibilidade que o papanicolau tradicional.
- Fortalecer a infraestrutura de laboratórios regionais para garantir diagnóstico rápido e preciso.
- Investir em campanhas de educação sexual e prevenção, focando em populações vulneráveis.
- Garantir acesso universal ao tratamento de lesões pré‑cancerosas, reduzindo a progressão para câncer invasivo.
Ao adotar essas medidas, o Brasil tem potencial para alinhar suas estatísticas às metas globais e proteger milhares de mulheres de um câncer que, em grande parte, pode ser evitado.
Em síntese, o estudo evidencia que o aumento projetado nas mortes por câncer de colo do útero não é inevitável. Ele reflete, sobretudo, falhas nas políticas de prevenção e nas desigualdades de acesso à saúde. A combinação de vacinação ampla, rastreamento eficaz e tratamento oportuno pode mudar o panorama mundial e evitar que a cifra de 522 mil óbitos anuais se torne realidade.








