As compras de produtos agrícolas dos Estados Unidos pela China caíram para o menor nível em sete anos, apesar do acordo que prevê aquisições de US$ 17 bilhões por ano. O recuo foi registrado entre janeiro e setembro de 2023, período em que o volume total chegou a US$ 7,2 bilhões. O dado foi divulgado pelo Departamento de Agricultura dos EUA e reflete a fraqueza da demanda chinesa.
Queda nas compras agrícolas
O declínio abrange todos os segmentos, exceto a soja, que ainda está vinculada a um compromisso separado. Entre os produtos analisados, carnes, milho, sorgo e outros grãos apresentaram redução expressiva. A China comprou US$ 7,2 bilhões em itens que vão de carnes a milho, o menor patamar desde 2019, ano em que a primeira guerra comercial entre as duas potências atingiu o ápice.
Especialistas apontam que a ausência de um cronograma claro para o início da contagem das metas dificulta a avaliação do cumprimento do acordo. A Casa Branca ainda não esclareceu se o prazo começou a contar a partir do anúncio de maio ou somente após a conclusão dos cortes tarifários propostos por Pequim, que ainda não foram implementados.
O ritmo lento das importações aumenta as dúvidas sobre uma recuperação ainda neste ano e frustra agricultores americanos, que enfrentam ainda custos elevados de combustíveis. A questão ganhou ainda mais relevância política nas vésperas das eleições de meio de mandato, marcadas para a primeira terça-feira de novembro, quando democratas tentam atrair eleitores de regiões agrícolas tradicionalmente republicanas.
Impactos nos principais produtos
O milho ilustra bem a situação. Em 2021, a China importou US$ 5,6 bilhões de milho americano, o equivalente a quase 20 milhões de toneladas. No último mês, a corretora estatal COFCO Futures alertou que o milho dos EUA não era competitivo devido ao excesso de oferta doméstica, projetando importações de apenas 900 mil toneladas para a safra 2026/27.
As exportações de sorgo também perderam espaço. Enquanto em 2021 o volume atingiu 6,5 milhões de toneladas, hoje o Brasil, que entrou no mercado chinês em setembro de 2025, lidera com 1,7 milhão de toneladas enviadas e quase um milhão adicional programado. Os EUA exportaram cerca de 3,7 milhões de toneladas até o fim de agosto, mas as vendas praticamente cessaram nos últimos quatro meses.
As carnes americanas enfrentam obstáculos semelhantes. A China dispõe de abundante oferta de carne suína e de frango, enquanto a carne bovina dos EUA está mais cara devido à redução dos rebanhos. Além disso, barreiras regulatórias limitam a capacidade de exportação: embora em maio a China tenha renovado licenças de mais de 400 frigoríficos americanos, cerca de metade da capacidade de abate de gado de corte permanece sem autorização.
- Carne suína – oferta abundante na China;
- Frango – concorrência forte;
- Carne bovina – preços elevados e restrições sanitárias.
Alguns frigoríficos foram barrados após autoridades chinesas alegarem a presença de resíduos de substâncias não aprovadas. O porta‑voz da Federação de Exportação de Carnes dos EUA, Joe Schuele, confirmou que esses problemas aumentam a relutância chinesa em ampliar as compras.
Perspectivas e desafios futuros
Analistas acreditam que alcançar a meta de US$ 17 bilhões será difícil, a menos que Pequim mobilize empresas estatais para impulsionar as aquisições. A demanda interna chinesa permanece fraca, e a concorrência de outros fornecedores, como Brasil e Argentina, intensifica a pressão sobre os produtores americanos.
O Departamento de Agricultura dos EUA já encaminhou ao Escritório do Representante Comercial (USTR) perguntas sobre o cálculo da meta proporcional para 2026, mas até o momento não obteve respostas do USTR, da Casa Branca ou do Ministério do Comércio da China.
Se as compras não se recuperarem rapidamente, os agricultores americanos podem enfrentar perdas significativas, especialmente em regiões que dependem fortemente das exportações para a Ásia. O cenário também pode influenciar a política agrícola interna dos EUA, pressionando o governo a renegociar termos ou oferecer subsídios adicionais.
Em suma, apesar do compromisso formal, as cifras atuais mostram que a China ainda está longe de cumprir o objetivo anual estabelecido em 2022. O futuro dependerá de ajustes tarifários, da competitividade dos preços americanos e da disposição de Pequim em utilizar recursos estatais para suprir a demanda interna.








