Um estudo conjunto de astrônomos sul‑coreanos e historiadores da arte revelou que a icônica pintura A Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, foi criada na madrugada de 22 a 27 de julho de 1889, em Saint‑Rémy‑de‑Provence, França. A pesquisa combina análises celestes, registros climáticos e cartas pessoais para determinar com precisão a data e o ambiente que o artista capturou.
Do céu de infância ao laboratório de Saint‑Rémy
Elijah Jeong‑hyun Kim, astrônomo da Universidade Kyung Hee, cresceu fascinado pelas estrelas depois de observar fragmentos do cometa Halley. Durante anos ele acreditou reconhecer o aglomerado das Híades na obra de Van Gogh, mas análises de 2019 sugeriram que o céu retratado pertencia à constelação de Áries, gerando dúvidas.
Para validar sua hipótese, Kim viajou ao asilo de Saint‑Rémy, onde Van Gogh esteve internado em 1889. Lá, sobrepôs um esboço da pintura a uma fotografia da paisagem, constatando que a posição das estrelas correspondia a uma noite de julho, não de junho.
Metodologia: como a data foi confirmada
O estudo, publicado na revista Scientific Reports, utilizou quatro linhas de evidência que se reforçaram mutuamente:
- Mapas celestes que mostravam a configuração exata das Híades, Vênus e da Lua em quarto minguante entre 22 e 27 de julho de 1889.
- Registros meteorológicos da região que indicavam céu limpo e temperaturas elevadas, corroborados pelas frequentes menções a cigarras nas cartas de Van Gogh a Theo.
- Análise das correspondências entre os irmãos Van Gogh, que revelaram uma reclusão de seis semanas iniciada em 19 de setembro, indicando que a pintura foi concluída antes desse período.
- Testemunhos de Van Gogh sobre ventos intensos e tempestades em julho, alinhados ao clima descrito nas cartas.
Ao cruzar esses dados, a equipe posicionou a criação da obra entre 25 e 27 de julho, quando o céu apresentava o brilho característico das Híades em forma de “V” e Vênus surgia como estrela matutina.
Comparações com outros mestres da arte
Van Gogh não é o único pintor cujas obras carregam vestígios climáticos precisos. Edvard Munch, autor de O Grito, descreveu em seu diário um céu vermelho‑sangue após a erupção do Krakatoa em 1883, fenômeno que ainda hoje é estudado por astrônomos. Já Claude Monet dedicou cerca de 100 quadros ao ar poluído de Londres entre 1899 e 1901, registrando a névoa cinzenta que cobria o Parlamento e a Ponte de Waterloo.
Esses exemplos reforçam a ideia de que arte e ciência podem caminhar juntas, oferecendo ao público uma janela para momentos históricos de clima e astronomia.
Impactos e reflexões futuras
Ao estabelecer uma data tão precisa, os pesquisadores não pretendem limitar a imaginação de Van Gogh, mas sim demonstrar que a observação do céu pode ser tão rigorosa quanto a de um telescópio. O estudo abre caminho para novas investigações que combinem análise de obras de arte com dados astronômicos e meteorológicos.
Além de enriquecer o entendimento da obra-prima de Van Gogh, a pesquisa destaca a importância de preservar documentos históricos, como cartas e registros climáticos, que podem revelar detalhes inesperados sobre a criação artística.
Em última análise, a descoberta reforça a conexão íntima entre o homem e o cosmos, lembrando que, mesmo em momentos de sofrimento pessoal, como a convulsão que Van Gogh sofreu em julho de 1889, o céu pode oferecer inspiração e consolo.








