Em 2026, o número de afastamentos do trabalho por ludopatia atingiu um recorde histórico no Brasil, segundo levantamento do g1 com dados da Previdência Social. Até agosto, foram contabilizados 377 casos, superando os 312 registrados em 2025. O aumento reflete a expansão das casas de apostas online, legalizadas em 2018.
Crescimento dos afastamentos e seus custos
O estudo aponta que, entre junho de 2023 e agosto de 2026, os benefícios concedidos por incapacidade temporária relacionados ao vício em jogos somaram cerca de R$ 4,8 milhões. Esse valor representa um salto de seis vezes em relação ao mesmo período de 2023.
Além do impacto financeiro, o afastamento tem repercussões sociais. Trabalhadores que precisam se ausentar por mais de quinze dias enfrentam perda de renda, estigma e dificuldades de reintegração ao mercado.
Os números ainda podem ser subestimados. O Ministério da Previdência alerta que a maioria dos casos não chega ao INSS, seja por desconhecimento da doença ou por medo de estigmatização.
Causas do aumento: o papel das apostas digitais
As casas de apostas online, introduzidas no país em 2018, trouxeram o jogo para a palma da mão. A facilidade de acesso via smartphones permite que o usuário aposte a qualquer hora, em qualquer lugar.
Especialistas apontam que essa disponibilidade constante cria um ciclo de reforço neuroquímico semelhante ao de álcool e outras drogas. O “tigrinho” digital, como é chamado popularmente, gera estímulos de recompensa que o cérebro associa ao prazer imediato.
Um estudo da USP, realizado em 2023, estimou que 1,4 milhão de brasileiros mantêm uma relação patológica com apostas. Embora o levantamento seja antigo, ele indica a dimensão latente do problema antes da explosão das plataformas digitais.
- Legalização parcial em 2018
- Expansão de aplicativos de apostas
- Falta de regulamentação clara sobre aviso de risco
- Uso intensivo de dispositivos móveis
Esses fatores combinados explicam por que o número de afastamentos permaneceu baixo até 2022 – com apenas oito casos anuais – e disparou a partir de 2023.
Impactos na saúde mental e respostas institucionais
A ludopatia foi reconhecida pela psiquiatria como doença em 1980, mas ainda enfrenta preconceito. O diagnóstico se baseia no Código CID F63.0, que classifica o jogo patológico como transtorno de controle de impulsos.
Profissionais de saúde mental relatam que o tratamento da ludopatia exige abordagens multidisciplinares, incluindo terapia cognitivo-comportamental, acompanhamento farmacológico e grupos de apoio. A dificuldade maior está na adesão ao tratamento, já que o acesso ao jogo permanece imediato.
O INSS concede o benefício de incapacidade temporária após perícia médica que atesta a incapacidade de exercer a atividade laboral. O processo pode durar semanas, o que aumenta a vulnerabilidade econômica do trabalhador.
Organizações de defesa do consumidor têm pressionado por leis que obriguem as plataformas a exibir avisos claros sobre os riscos de perda financeira. Algumas propostas incluem a inserção de mensagens de alerta antes de cada aposta e a implementação de limites de depósito.
Em contrapartida, o setor de apostas argumenta que a regulação já existente permite o monitoramento de usuários e a identificação de padrões de risco. Contudo, casos recentes – como a investigação de uma empresa que oferecia atendimento personalizado via WhatsApp a jogadores com ludopatia – demonstram que as regras podem ser insuficientes.
Para ilustrar o impacto pessoal, a história de Vitória Macedo, 29 anos, mostra como o vício pode destruir finanças familiares. Após perder mais de R$ 30 mil, incluindo recursos do FGTS, ela precisou se afastar do emprego para buscar tratamento especializado.
O cenário aponta para a necessidade de políticas públicas integradas: prevenção nas escolas, campanhas de conscientização, treinamento de profissionais de saúde e fiscalização rigorosa das plataformas digitais.
Enquanto o Congresso debate a permanência ou revogação da medida provisória que proíbe as apostas, a população continua vulnerável. A urgência de medidas eficazes se reflete não apenas nos números de afastamento, mas também na qualidade de vida dos afetados.







